terça-feira, 1 de abril de 2008

Falta ar nesses cérebros gananciosos

O Lance! de hoje traz reportagem exclusiva sobre o risco dos times jogarem em altitudes elevadas. Se antes os fatos sobre o assunto eram apenas os protestos do Flamengo e a campanha junto à Fifa, além da opinião discordante dos cartolas andinos, agora há algo de concreto.

Dois médicos bolivianos revelaram que a Federação de futebol daquele país encomendou um estudo, com exames clínicos, a fim de provar que não há risco para os atletas que jogam na altitude. O resultado deu parecer contrário, incluindo o caso de um jogador boliviano que morreu em campo.

A questão, como muitas de nosso esporte, tem fundo político. A direção da Fifa precisa do apoio da Confederação Sul-Americana, cuja direção precisa do apoio das Federações dos países que a compõem.

Por isso, só depois de várias evidências de risco à saúde dos atletas e de protestos constantes, a Fifa definiu que jogos das Eliminatórias da Copa não podem acontecer em altitudes maiores que 2.750m. "Jogador de seleção não pode morrer, mas de clube, pode", resumiu bem Emérson Leão. E vejam que é apenas uma recomendação, que as Confederações podem aceitar ou não.

Por se tratar do esporte universal das massas, os contornos políticos do tema são amplos. Evo Morales, presidente da Bolívia, comprou a briga: reformou um campo de futebol a mais de 4.000m e vai jogar profissionalmente na segunda divisão de seu país. Recebeu o apoio de Maradona, que é discípulo de Hugo Chávez no quesito "meter-se em questões alheias querendo aparecer".

A reportagem do Lance! ainda aponta que é possível jogar na altitude, desde que haja um período de aclimatação suficiente para os atletas. Aí entra o problema do calendário das milhões de competições que os times são obrigados a enfrentar. O Flamengo, por exemplo, joga dia 6 contra o Vasco, três dias depois contra o Cienciano (a 3.400m) e três dias depois é a semifinal da Taça Rio.

Isto é Brasil? Então vamos ao primeiro mundo: em dezembro o Arsenal jogou num domingo pelo campeonato inglês; no meio da semana, pela Copa da Inglaterra; e no dia de Natal, de novo pelo campeonato nacional! Sem contar Liga dos Campeões e Copa da UEFA. Lembram dos jogadores chegando machucados às vésperas das últimas Copas? Pois é.

Agora eu pergunto: a Fifa se preocupa como devia com isso? A saúde dos atletas não parece estar em primeiro plano, diante de tantas mortes recentes no futebol e de um calendário desumano. O que parece (e é) está bem resumido na opinião do craque holandês Seedorf: "futebol é um mercado de carne".

Para o meia do Milan, o que está em vigor hoje é vender e vender jogadores, sem se importar se eles vão se ambientar no novo clube e local, deixando-os à própria sorte após o tilintar dos dólares na conta. Perfeito. É o que a Fifa faz, com sua omissão: trata os jogadores como pedaços de carne com etiqueta de preço. Se fenecerem, há outros "cortes" no mercado.

Quem torce, comenta e cobre o futebol precisa repercutir as palavras de Seedorf e a reportagem do Lance!, para que as fatalidades em campo não rimem com outra palavra: banalidade.

3 comentários:

carlos pizzatto disse...

Parabéns pelo blog.

Está adicionado na lista dos links.

Abraços!

André Mello disse...

Lessa,
A solução para o problema é simples. Basta a FIFA legalizar, junto com os jogos na altitude, o dopping. Os índios bolivianos não sentem os efeitos da altitude (e desconfio que o Maradona também não). Olha aí: Já estou vendo os velhinhos da FIFA com as camisetas do Legalize Já e cabelos rastafari. Que tal?

Marcos André Lessa, cristão, flamenguista, jornalista formado pela UFF-RJ disse...

Difícil imaginar, André... A caretice lá é demais! :-)