sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O que é de fato, ninguém tasca

Em 1987 eu tinha sete anos e colecionava meu primeiro álbum de figurinhas: o da Copa União daquele ano. Flamenguista, fiquei super feliz quando tirei o Bebeto, meu ídolo de então - ainda não tinha cabeça pra entender a importância de Zico, e o franzino camisa 7 era o fazedor dos gols que me alegravam.

Não lembro de muita coisa dessa competição, mas a final contra o Internacional, no Maracanã, não me sai da cabeça. Eu assisti pela TV, era um dia de chuva e o uniforme branco dos gaúchos ficava todo enlameado, assim como o calção branco dos jogadores do Flamengo.

Pelo Colorado, Taffarel já despontava como grande goleiro, Luís Carlos Winck se firmava na tradição de bons laterais-direitos do país. Do lado rubro-negro, o eterno camisa 10 era acompanhado do explosivo Renato Gaúcho, do jovem lateral-esquerdo Leonardo, então com 19 anos, do promissor Jorginho na lateral-direita. Além de Zé Carlos no gol, Leandro e Andrade ainda no Fla.

O jogo foi nervoso do começo ao fim, o 0 x 0 teimava em não sair do placar, até que Andrade enfiou uma bola milimétrica para o magrelo Bebeto dividir, já dentro da área, com Taffarel e outro zagueiro do Inter. Bola na rede. Fiquei preocupado, achando que meu ídolo tinha se machucado no lance.

O jogo seguiu, em determinado momento Zico foi substituído (lembro do seu calção todo sujo de lama, mesmo em fim de carreira não deixou de lutar em campo), a torcida ovacionava, Maracanã vermelho e preto lotado.

Fim de jogo, Flamengo campeão da Copa União de 1987. O que, como o álbum de figurinhas, a imprensa e a torcida de todos os times participantes tratavam à época, significava ser campeão nacional. Leonardo chorava no ombro de Zico, eu com meus sete anos me emocionava junto.

Só bem mais tarde fiquei sabendo da polêmica com o Sport, e ainda assim comemorei o hexa em 2009. Quem vai tirar o que senti em 1987? A CBF? Ricardo Teixeira? Patricia Amorim?

Todos esses vão passar, mas a sensação de um garoto vendo pela primeira vez seu time ser campeão brasileiro, não passou até hoje. E será sentida até por meus filhos.

Façam o que quiserem, digladiem-se politicamente, produzam mil dossiês. O Flamengo é campeão brasileiro de 1987 até que o coração de cada genuíno torcedor prove o contrário.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Desperdício é isso aí


"Não rasgue o bilhete premiado da loteria!"

Assim o ex-craque e hoje comentarista Junior, olhando para a câmera, se dirigia a Jobson. O Globo Esporte tinha acabado de apresentar mais um relato sobre mais uma indisciplina da jovem promessa. O Cronista Esporte já abordou muito bem a questão de como os atletas jogam fora suas carreiras, usando como exemplo o atacante do Botafogo.

Mas queria falar de outro tipo de desperdício, talvez mais imperdoável do que o de Jobson e outros aspirantes a craques. Porque esses ainda têm o atenuante de serem jovens, ficarem mais facilmente deslumbrados, não saberem direito o que está em jogo - o que não os exime da responsabilidade.

Pior é quando um jogador já experiente e talentoso, com chance até de se firmar na Seleção Brasileira, parece fazer pouco caso do dom que recebeu. Por motivos diferentes, também rasgam seus bilhetes premiados.

Felipe, atualmente de volta ao Vasco, é um deles. Dono de um dos melhores passes do Brasil, depois de se destacar no meio-campo do Flamengo, chegou à Seleção. Mas os "chinelinhos", as indisciplinas e a falta de vontade para levar a sério sua profissão o reduziram a um injusto (no que diz respeito ao talento) exílio no Qatar.

Porém ainda há exemplos gritantes, como Adriano e Carlos Alberto. Desde o ocaso de Ronaldo a camisa 9 da Seleção está vaga. Luís Fabiano teve que superar muitas desconfianças para se tornar intocável com a amarelinha. E foi muito ajudado pela displicência do atacante da Roma, de quem sempre foi banco.

O tempo foi passando (e ainda está!), até Grafite foi pra Copa, Alexandre Pato não parece ser o matador característico... E o que faz Adriano? Briga com a Roma, faz molecagem, deixa-se levar pelas possibilidades de retorno aos clubes brasileiros... Se despertasse de uma vez por todas, nunca o "poste" Borrielo seria titular no clube romano. E ainda não surgiu outro centroavante para o Brasil. Até quando Adriano vai ficar brincando com a sorte?

O mesmo para Carlos Alberto. Abstraia a fama que ele criou e sua inconstância. A verdade é que o meio-campo do Vasco sabe armar o jogo, dar passes milimétricos, é difícil tirar a bola dele. Ou seja, sabe jogar. Com a ausência de Ganso, falta um camisa 10 na Seleção. Se Carlos Alberto acordasse, poderia ao menos sonhar com essa possibilidade.

Além disso, é destro. Talvez jogasse até com Ganso, dependendo da situação de jogo. Ou seria um reserva imediato (se até Douglas foi testado...). Mas parece satisfeito em ficar metade do ano sem jogar e com o currículo que acumulou até o momento. Não se vê em Carlos Alberto, ainda com 25 anos, o brilho nos olhos de jogar pela Seleção.

Pra mim, esses são os casos mais emblemáticos dessa malemolência preguiçosa que não permite o despontar de carreiras vitoriosas como poderiam ser. Adriano e Carlos Alberto, se esforçando um pouco, conseguiram trazer títulos nacionais para seus respectivos clubes sendo os principais jogadores. O que não fariam com disposição total?

E você? Lembra de outros casos clássicos de desperdício?

domingo, 12 de dezembro de 2010

A saia justa de Conca


Sabe aquela do marido traído que, ao descobrir a esposa com o amante no sofá, resolve tomar uma atitude pra resolver a questão? Ele tira o sofá da sala e acha que fez o que tinha que fazer. Foi a mesma situação que o argentino Conca provocou ao se destacar como o melhor jogador em atualidade no Brasil, inclusive trazendo resultados, como o título de campeão brasileiro.

Com Paulo Henrique Ganso no estaleiro até 2011, a pergunta que ficou no ar (e que foi respondida pelo atleta portenho) é: quem mais pode ser considerado um autêntico camisa 10 nos gramados tupiniquins?

Outros dois argentinos foram lembrados, como Montillo e D'Alessandro. Mas eles não são aqueles meias-armadores que deixam os atacantes na cara do gol enquanto permanecem no círculo central. Os jogadores de Cruzeiro e Internacional carregam a bola até o ataque, para aí sim dar a assistência final e até mesmo concluir com a bola na rede.

É claro que Conca também aparece na frente e faz seus golzinhos, mas seu estilo de jogo é levantar a cabeça e dar aquele passe milimétrico que deixa qualquer defesa "vendida". O meio-campo tricolor não corre, e nem precisa: faz a bola correr pra onde quer.

Então, depois de ganhar todos os prêmios possíveis e imagináveis pelo seu desempenho em 2010, outra pergunta ficou no ar mas ninguém ousava pronunciar. Até que o próprio Conca resolveu se naturalizar brasileiro. Deixou a imprensa esportiva de saia justa, praticamente obrigando-a, muito a contragosto, a levantar o tema: o argentino tem vaga na Seleção Brasileira atual?

As reações foram como a do marido traído. Teve jornalista que chegou a dizer que há outros melhores que Conca, como Lucas, do São Paulo, ou Bruno César, do Corinthians. Ah, o jornalista era do Estadão...

O constrangimento grassava no ar. Afinal, o Brasil está sem um autêntico camisa 10, com exceção de Ganso. Isso ficou claro para o mundo quando Mano Menezes tentou Ronaldinho Gaúcho e o pobre-coitado Douglas na posição - diante da Argentina, vejam só. O próprio treinador foi mais sincero do que muita gente.

São muitos os motivos que nos trouxeram a essa situação (não ter um camisa 10): falta de trabalho na base, mau aproveitamento dos potenciais armadores quando chegam ao time profissional, êxodo recente.

Mas a resposta que ninguém admite dar é que Conca tem sim, lugar na Seleção, por nada mais, nada menos que atender a uma carência (talvez momentânea). Não é porque ele é argentino que vou deixar de admitir essa verdade escancarada.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O refresco da memória

(Foto: Mowa Press)

A gente teima, fica viciado nas mega-análises sobre esquema tático, preparação física, polêmicas extracampo etc etc etc etc etc...

Aí vem um Messi e nos lembra o que é futebol.

Quem esperaria aquele gol aos 46 do segundo tempo? Bom, do Messi dá pra esperar qualquer coisa. Mas o jogo já estava resolvido, parecia que as equipes não tinham mais nada a oferecer, a distribuição em campo e o desentrosamento dos jogadores já tinham feito seu trabalho...

Só que a genialidade inquieta não se doma. As amarras táticas, as vaidades dos técnicos, a violência em campo, a pusilanimidade dos árbitros, a mercantilização do futebol - tudo isso pode aprisionar a essência do futebol por um tempo (seja de que duração for).

Porém a essência ainda está lá, tal monstro aprisionado nas profundezas do mar, que força os grilhões a todo instante, por instinto natural. E de tanto forçar, arrebenta-os. E um dos escolhidos pelos deuses do futebol para realizar esse feito nos dias atuais é Lionel Messi.

Se você acha exagero, pegue as últimas duas temporadas de La Pulga. Quantos gols, passes, dribles e jogadas memoráveis ele protagonizou? Então.

"Nenhum jogador brasileiro hoje joga 50% do que o Messi está jogando". A afirmação é de Juninho Pernambucano, ele mesmo um dos maiores que o Brasil já teve, injustiçado em Copas assim como Ademir da Guia.

Quando Mano Menezes foi instado por um repórter a comentar a categórica obervação do ex-vascaíno, fechou a cara, disse que "o Brasil também tem grandes jogadores", e que "amanhã o jogo vai ser contra uma equipe, não um jogador". Como comandante da Seleção, entendo a postura diplomática. Mas ele não rebateu, nem contra-argumentou. Sabe que é verdade.

O pior é que Mano estava errado. Além da Argentina, o Brasil ainda enfrentou Messi. Segurou o resultado, mas não segurou o camisa 10. Uma roubada de bola, uma tabela de calcanhar e, cinco segundos e quatro marcadores depois, a bola morria no canto (oposto!) do goleiro Vitor.

Coelho da cartola, fênix, súbita inspiração. Escolha a descrição que achar melhor. Messi fez o grande favor de relembrar ao mundo que, apesar de seus "donos" em todas as esferas, o futebol não morreu. Está no talento natural de seres de outro planeta como Lionel Messi.

sábado, 2 de outubro de 2010

A profissionalização do cinismo

Renato Mauricio Prado é um jornalista esportivo que possui uma característica rara entre seus colegas de profissão: assume publicamente o time para o qual torce, no caso, o Flamengo. Não vejo isso com desprezo, pode até ajudar o leitor a avaliar se o jornalista faz um bom trabalho. No entanto, seu artigo após a saída de Zico expôs de uma vez por todas como é fácil ser colunista de futebol no Brasil.

Quem acompanhou a coluna de RMP no Globo viu que desde o começo ele desconfiava que Zico pudesse dar certo como dirigente. Conhecedor das entranhas da Gávea, com "raposas felpudas" que lhe servem de fontes, o jornalista fazia seu trabalho como convém. Principalmente por ser rubro-negro, e assim demonstrar que não há parcialidade em seus relatos.

Porém desde que as suspeitas sobre a relação do CFZ com o Flamengo e o suposto conflito de interesses de Zico começaram a surgir, RMP ecoou cada desenrolar do caso em sua coluna. Também não seria nada de anormal, são os fatos surgindo e o jornalista cobrindo-os.

Mas é preciso lembrar que RMP conhece Zico desde os tempos de jogador, e acompanha a trajetória do Galinho fora dos campos como poucos. Ele, melhor do que ninguém, conhece o caráter de Arthur Antunes Coimbra. Como titular de uma coluna do maior jornal do Rio, deve saber a responsabilidade que pesa sobre seus dedos na hora de evidenciar uma história.

Até agora, nada foi provado sobre as possíveis irregularidades da parceria entre CFZ e Flamengo. O mesmo para a interferência de seus filhos nas contratações efetuadas. Ou seja, a história tinha tudo pra morrer por falta de fundamento. Mas foi dia sim dia não requentada por RMP em sua coluna.

Tudo isso poderia passar despercebido e nem seria feita menção neste blog, mas o artigo de RMP após a saída de Zico denota um cinismo que poucas vezes vi na cobertura esportiva.

Primeiro, porque é muito fácil julgar que Zico fraquejou ao "abandonar o barco em meio à tormenta". Que barco? Sua chegada no clube ajudou Patricia Amorim a abafar a crise da saída de Andrade e Marcos Braz. O Flamengo estava refém dos desmandos de seus jogadores, e Zico veio colocar ordem na casa.

Nem era obrigado a isso, pois a proposta de Patricia envolvia as categorias de base e o Centro de Treinamento. Zico não fugiu da responsabilidade e viu que não dava pra não assumir o departamento de futebol profissional. Mesmo sem autonomia plena, dependendo de outras instâncias do clube para contratar, encarou o desafio.

A farra dos empresários tinha acabado (Eduardo Uram ficou esse tempo todo sem fazer negócios por lá), e Zico reiterava que sua missão era de longo prazo, que o CT era necessário, e do jeito que dava tentava remendar os estragos em meio a um Brasileirão equilibradíssimo. Como RMP vem a público dizer que Zico "esqueceu do presente"? Então, se ele apenas visasse o imediato sem se preocupar com a estrutura, aí sim seria uma administração digna?

RMP diz que não crê "em nenhuma das maledicências que espalharam a respeito de seus filhos, agindo como empresários". Espalharam? Quem ecoou a história dias e dias em sua coluna? Se não acreditava, por que deu crédito a ponto de assinar embaixo para todos os leitores do Globo?

Pra completar, RMP ainda se diz decepcionado por Zico ter deixado o cargo. Como já falei aqui antes, cada um sabe de seus limites. Se querer fazer um trabalho direito (do qual não precisa) causa dissabores para sua família, qual a motivação para continuar? É muito fácil sentar a bundinha na frente do computador e vaticinar a respeito das decisões difíceis que gente como Zico têm que tomar diante da horda do Flamengo atual.

E pra mim isso é o pior de RMP: um cara que (como tantos que vemos por aí) abandonou o esforço jornalístico da apuração e virou comentarista apenas. Bem remunerado independente do que fale, cultivando fontes jurássicas que sabem como passar os recados interesseiros.

Pra não acharem que estou exagerando, veja o trabalho de Paulo Vinicius Coelho, um jornalista sediado em São Paulo, sobre o caso. Ele mostra que não há nada irregular com a parceria entre CFZ e Flamengo. Isso é apuração sem preguiça.

Também é muito fácil, depois de trabalhar tão mal, fazer um artigo diplomático na medida certa e batendo apenas no lado mais fraco. Esse tipo de jornalismo esportivo o país não precisa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sem Zico não há Flamengo

Hoje é um daqueles dias em que você se pergunta se ainda vale a pena acompanhar futebol. Lembro que me senti assim depois da final da Copa de 1998 com todos os desdobramentos Ronaldo-Nike.

Como flamenguista e defensor do resgate do clube das mãos de seus sanguessugas, meu luto pela saída de Zico não tem data pra acabar. E talvez (talvez!) seja atenuado assistindo ao rebaixamento do Flamengo à segunda divisão do Campeonato Brasileiro.

Sei que isso não resolveria os problemas, nem daria uma crise de consciência nos dirigentes (públicos e escusos) que se perpetuam ordenhando a vaca premiada que o é milionário Flamengo.

Sim, milionário, e se o dinheiro não sobra é porque administrações errôneas, incapazes e mal-intencionadas é que fazem o dinheiro ir pelo ralo de contratações questionáveis, justiça trabalhista e afins...

Mas não há como desejar outra coisa além do castigo do rebaixamento quando o ídolo maior Zico, que construiu sua carreira de maneira ilibada dentro e fora dos campos, é enxotado do clube sob pretextos que nunca foram aplicados a outros dirigentes.

Se o Galinho recebesse um milhão de críticas pelas decisões que tomou no futebol isso seria um exercício democrático. Zico cometeu erros - o principal, a contratação do zagueiro Jean - mas em nenhum momento pensou em abandonar o projeto de resgatar o clube moralmente. Mas não foram apenas críticas. Foi sabotagem mesmo.

Tudo começou de maneira covarde. Seus acusadores espalharam na internet os boatos sobre as ingerências dos filhos de Zico nas contratações. Nenhuma assinatura. Zico expôs esse detalhe e pediu para virem a público assumirem as denúncias, explicou tudo e que os contratos dos jogadores estavam à disposição do clube.

Depois, o filho do ex-presidente Delair Drumbosck resolveu dar as caras, junto ao pseudojornalista Milton Neves, para acusar Zico de nepotismo, insistindo na acusação acima. Logo ele, que na gestão do pai chefiou o departamento de marketing, e é sócio do filho de Milton Neves numa agência que perdeu a conta do clube.

O filão estava pronto. Renato Mauricio Prado, que cobre o Flamengo desde os tempos de Zico como jogador, levantava a bola dia sim, dia não em sua coluna no Globo. Estamos falando de um jornalista que conhece o caráter de Zico como poucos, de perto, e ainda assim encampou a tese de que o Galinho estava usando o clube para proveito próprio. A parceria com o CFZ, feita na gestão de Delair, não foi criticada à época, em nenhum de seus pontos.

Zico veio para dar um jeito nas divisões de base. Fora o aspecto de ser uma "fábrica de bichos", como pontua Lucio de Castro, era a farra dos empresários. Jogadores que nunca chegaram aos profissionais eram vendidos sem nenhum lucro para o clube. Uma prática que foi denunciada e combatida por Zico em sua curta gestão. E que o Conselho Fiscal e os jornalistas que cobrem o Fla nunca criticaram.

A ascensão de Leonardo Ribeiro como presidente do Conselho Fiscal do clube é uma boa demonstração de como as coisas funcionam no Flamengo. Um chefe de torcida organizada dura mais tempo como dirigente do que o maior ídolo da história do clube. E após passar pela Federação de Futebol do Rio pelas mãos de Eduardo Vianna, o "Caixa d'Água", posa de defensor dos interesses do Fla acusando Zico. Ora, pensam que somos idiotas?

Mas a mesma perseverança que Zico demonstrava dentro de campo ele encampou diante dos problemas acima relatados. Só que cada um sabe do seu limite. O de Arthur Antunes Coimbra foi quando, na impossibilidade (ou covardia) de atingi-lo diretamente, criaram o factóide em cima da família. Ninguém pode condená-lo por abandonar o barco, torpedeado há décadas na Gávea.

Talvez o maior erro de Zico tenha sido o de ter assumido o cargo de diretor-executivo no conturbado momento da demissão de Marcos Braz. Pegar o bonde andando, tendo que oferecer resultados, seria uma tarefa difícil para qualquer um. Mas no Flamengo, cheio de sanguessugas ainda por cima, a tarefa fica quase impossível.

Se Zico tivesse ao lado um presidente com forte apoio político e no começo de sua gestão, talvez as coisas fossem diferentes. Não é o caso de Patricia Amorim. Fraca como líder, sem saber bulhufas de futebol, e isolada na seara política da Gávea.

Mesmo assim, o tal presidente teria que comprar a briga moral que Zico comprou. E não vejo nenhuma possibilidade de existir alguém assim dentro do clube.

Diante de tudo isso, não me resta outra alternativa a não ser torcer pelo rebaixamento do Flamengo. Sei que, como todo torcedor, o desejo sincero que isso aconteça vai arrefecendo com o tempo. Mas o luto, a ressaca, a tristeza de ver Zico desistindo por não ver chance de moralizar o clube, pressentir que Luxemburgo e seus esquemas estão prestes a desembarcar, me dá uma desesperança muito grande.

Continuo com Zico, mas não pelo Flamengo. Não ESSE Flamengo.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os três mosqueteiros


Uma mudança cultural pode estar começando diante de nossos olhos. Os protagonistas desse processo? Mano Menezes, Zico e Luís Álvaro de Oliveira, presidente do Santos. Atitudes recentes tomadas por eles, bem como a transparência sobre o que pensam, podem dar outro norte à maneira de se enxergar e fazer futebol no país.

Atendendo ao clamor popular da vez e às encomendas do patrão Ricardo Teixeira, Mano Menezes entabulou a renovação da Seleção e a volta do futebol ofensivo, com muito cavalheirismo perante imprensa e patrocinadores. Até aí, nada de novo na postura de um técnico de Seleção que começa o seu trabalho.

Porém Mano tem ido além em sua postura. Já declarou que o Brasil precisa retomar o protagonismo no cenário mundial, e que isso deve se refletir dentro de campo com um futebol que intimida o adversário, no sentido talentoso da expressão. Como se não bastasse, ressaltou que os volantes da Seleção devem saber sair pro jogo, e não apenas "combater". E esclarece cada dúvida sobre suas convocações, sem embromation. Também opinou que jovens craques como Neymar devem permanecer mais tempo no país.

Zico assumiu o risco de ser cartola enquanto ainda permanece no panteão dos deuses da torcida do Flamengo. Assim que os primeiros resultados negativos apareceram, veio a pressão para reforçar o time sob pena de ter sua gestão ser tachada de incompetente - com apenas dois meses de vida.

O Galinho já imaginava que haveria gente para jogar contra dentro do próprio clube, que contam até com mensageiros midiáticos. As especulações sobre reforços surgiam na imprensa e Zico não confirmava nenhuma delas. Confrontado por repórteres quando faltavam dois dias para fechar a janela de transferências, ele reiterou: "Só vamos anunciar quando tudo estiver sacramentado e os atletas tiverem condição de jogo".

Dois dias depois, Deivid e Diogo chegaram, e o anúncio foi feito pelo site oficial do Flamengo, dentro das condições acima descritas. Zico não vazou a informação para jornalistas muy amigos, nem prometeu o que não podia só pra acalmar a massa rubro-negra. Ouviu críticas de que não estava se movimentando para resolver o problema e as engoliu em seco. Contratou, e cumpriu o objetivo de não fazer loucuras financeiras ou prejudicar o clube em relação a empresários.

O presidente do Santos fecha o trio com chave de ouro. Em vez de ter o pensamento mercantil de quanto poderia faturar com a venda de Neymar e dar o assunto por encerrado, pensou "fora da caixa". Fez o dever de casa, quebrou a cabeça, fez contatos para saber como convencer o jogador e seu staff a permanecer no Santos.

Apresentou um plano de carreira que não envolvia só dinheiro, mas a valorização do jogador e do cidadão Neymar, e vai fazer o mesmo com Ganso. Durante todo o ano, assim como o técnico Dorival Junior, respeitou as características dos atletas sem cair no patrulhamento hipócrita e moralista que o mundo do futebol tanto adora.

Pra completar, Luís Alvaro ainda denunciou o Chelsea à Fifa por aliciar Neymar enquanto ele ainda negociava com o Santos. "É necessário mostrar que o Brasil não é coloniazinha subdesenvolvida", disse ele. Esquerdismo de ocasião? Não, apenas a defesa do futebol brasileiro em todas as suas instâncias.

Outra característica comum aos três é que cultivam um bom relacionamento com todas as partes envolvidas no seu trabalho, sem deixar de exercer a autoridade e a responsabilidade que lhe cabem: imprensa, técnicos, jogadores, dirigentes, torcida, patrocinadores.

Mano, Zico e Luis Álvaro dependem de resultados vitoriosos dentro de campo para sacramentarem sua moderna maneira de encarar o futebol. Entretanto já são expoentes de um novo pensar. O país que é o maior celeiro de craques do planeta não pode ser tocado de um jeito amador e antiquado. Nem como se ainda fosse colônia de exploração. Tampouco deve copiar tudo o que vem de fora só por fetiche.

Atitude, trabalho suado e sério, transparência nos métodos e caráter para alcançar os objetivos. Os três mosqueteiros têm tudo isso, e espero que inspirem os demais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Com Zico Pelo Flamengo na Gávea... e bastidores


(Ironicamente, essa foi a única foto que ficou boa)

O Futebol Racional acompanhou o encontro entre os torcedores do movimento Com Zico Pelo Flamengo e a presidente do clube, Patricia Amorim, além do próprio Zico. Foi uma oportunidade para conhecer melhor o movimento e também para sentir o clima da Gávea, ouvindo argumentos da oposição e explicações de Patricia.

Houve autorização para que qualquer torcedor que aparecesse com a camisa do Fla pudesse entrar no clube (cerca de 60 estavam presentes). Assim que Zico e Patricia chegaram do Ninho do Urubu, foram ao gramado e ouviram o apoio do Com Zico Pelo Flamengo.

"O CZPF é um movimento espontâneo e que não está ligado a nenhuma torcida. Queremos apoiar o Zico, que veio purificar o clube, ele é o verdadeiro Flamengo", explica Rafael Garrido, um dos integrantes. A ideia é conscientizar os torcedores que a volta de Zico é um momento único para o clube, e é preciso um engajamento para solidificar esse apoio.

No gramado, entregaram duas cartas e se puseram à disposição para mobilizar a torcida nas campanhas que o clube vier a implantar. Patricia e Zico agardeceram e reafirmaram que é esse tipo de apoio que eles mais precisam.

A oposição a Zico e também a Patrícia

Antes do encontro, o Futebol Racional conversou com um integrante da diretoria de planejamento no mandato de Delair Drumbosck (presidente que perdeu a reeleição para Patricia). Pedindo para não ser identificado, ele contou que a gestão atual não deu continuidade a projetos que estavam consolidados junto à torcida do Flamengo.

"Ainda na gestão Marcio Braga, grupos de torcedores em todas as partes do país recebiam um apoio institucional do clube para serem as Embaixadas da Nação, um ponto de encontro em cada uma das cidades do Brasil e em diversas cidades do mundo. Cada embaixada funcionava de maneira autônoma, onde o clube apenas apontava diretrizes a serem seguidas. Isso foi abandonado", conta.

Outro projeto que segundo ele está esquecido pela gestão atual é o do GEASE-FLA - Grupo Especial Alegria e Segurança nos Estádios, em que voluntários propunham e implementavam ações para ajudar na segurança dos estádios. "Além disso, a Patricia não tem quadros. Há vice-presidências em aberto, e alguns, como o Michel Levy, estão acumulando duas vice-presidências". Segundo o ex-integrante, tudo o que foi encaminhado por Delair a Patricia não foi levado em consideração.

"As críticas só não estão aparecendo por causa do Zico. A presença dele inibe o pessoal de falar abertamente", completa. E afirmou que há integrantes da diretoria atual que estão contra Zico.

Patricia responde sobre dinheiro, Traffic, sabotagem a Zico e mudança no estatuto

Enquanto Zico tirava fotos e dava autógrafo com TODOS os torcedores que compareceram, Patricia Amorim respondeu a várias perguntas, numa coletiva improvisada.

Ela admitiu que pode haver oposição a Zico no clube - "sempre tem um infeliz" - e que está dando todo o apoio ao Galinho, embora não tenha citado nenhum exemplo prático disso. Política experiente, ela conseguiu dar várias respostas longas sem dizer muita coisa.

Quanto questionada sobre a situação financeira para contratar, Patricia explicou que o clube não pode fazer loucuras e que ainda estão trabalhando com o orçamento aprovado na gestão passada. "Para 2011, a história é outra". A mudança no estatuto do clube, para trazer independência ao departamento de futebol, está sendo preparada - informação confirmada por Zico.

Sobre a possibilidade de empresas como a Traffic fazerem negócios com o clube na contratação de jogadores, a presidente admitiu que é possível, "se o negócio for bom para o Flamengo". Por exemplo, se a porcentagem do passe for maior para o clube do que para a parceira.

Patricia afirmou que enfrenta dificuldades porque não faz parte de nenhum grupo político, "assim como Zico", e acrescentou que Delair Drumbosck não encaminhou nenhuma ideia ou sugestão - ao contrário do afirmado pelo ex-integrante de sua diretoria de planejamento.

Zico, as dificuldades e os reforços

Já anoitecendo, Zico também emendou numa coletiva improvisada no gramado. Reafirmou que só anuncia reforços quando estão inscritos no BID (boletim da CBF para registro de jogadores regularizados) e desconversou sobre todos os nomes veiculados na mídia, como Diogo e Deivid. Mas que vai tentar até o final da janela de transferências, daqui a dois dias.

O Galinho também ressaltou o exagero nas críticas ao time atual. "Estamos a um ponto da Libertadores, e com vários jogadores do título de 2009. Será que o Flamengo é tão ruim assim?". No treino de hoje, o diretor-executivo conversou com o elenco, pedindo para que acreditassem em si mesmos a despeito das críticas. E acrescentou: "ninguém perde jogadores de alto nível, como nós perdemos, impunemente".

Perguntado pelo Futebol Racional sobre qual é a maior dificuldade que está enfrentando no Flamengo, Zico disse que é a falta de independência do departamento de futebol. "Nós precisamos tomar decisões rápidas, e não temos hoje condições de fazer isso, de sermos ágeis". Ele confirmou que estão preparando a mudança de estatuto, mas que "isso tem que ser feito de forma fundamentada e bem preparada, para não ser aprovado e logo ser deixado de lado".
 
Foi possível perceber que Patricia consegue causar empatia nos torcedores e dar respostas para qualquer quationamento - mesmo que escape das perguntas mais complicadas. Ela reafirma o apoio a Zico mas nem ela nem o Galinho dão detalhes sobre como esse apoio acontece lá dentro.
 
Também é possível perceber que o grande objetivo de Zico é a construção de um Centro de Treinamento, priorizando uma reformulação total do trabalho com as divisões de base. Em nome disso, o trabalho com o time profissional é um "osso do ofício" que Zico está tocando - e parece estar engolindo muitos sapos no processo.
 
O clima na Gávea parece ser o de uma bomba-relógio que está em stand by pela presença de Zico. Mas também existe a percepção que é uma questão de tempo para que essa bomba desapareça. Para isso, é necessário algum sucesso no Campeonato Brasileiro e a mudança de estatuto, para dar a autonomia na prática ao departamento de futebol (com Zico à frente, claro).
 
Com Zico Pelo Flamengo manifesta apoio a Zico:
 


sábado, 14 de agosto de 2010

Se eu fosse o Neymar...

Não é fácil ser jogador de futebol no Brasil. Isso vale para todos, seja desconhecido ou famoso, perna-de-pau ou craque. Ele sempre estará cercado de expectativas, opiniões, palpites, cobranças, euforias, patrilhamento, puxa-saquismo. E na grande maioria das vezes será visto apenas como uma máquina de chutar bola, quase nunca como pessoa.

Veja o caso de Neymar. Apenas 18 anos, e graças ao êxodo de jogadores brasileiros, precisou ser aproveitado no time profissional desde o ano passado. Nessa idade mostra futebol de gente grande, sem se intimidar e com imenso talento. Ironicamente, é essa postura em campo que o atrapalha a viver uma vida normal para quem tem 18 anos.

Pare e lembre seus 18 anos. Imagine que você, no seu primeiro estágio, já desponte como um ótimo profissional. O natural é que seus chefes, colegas de trabalho, família, amigos o orientem e o acompanhem. Sempre levando em consideração que você está começando, e que por melhor que seja o seu desempenho, você tem apenas 18 anos.

No entanto, seria uma loucura colocá-lo num cargo ou numa situação de responsabilidade esperando que você aja como alguém experimentado e com décadas de profissão. E seria burrice esperar que alguém de 18 anos dê conta do recado sem a bagagem necessária.

Mas é isso que estão fazendo com Neymar. Como dentro de campo ele é um prodígio e não sente a pressão de ter apenas 18 anos, pensam que ele pode ser assim nos outros aspectos da vida. Um patrulhamento desnecessário que pode levar a própria torcida a vê-lo de uma maneira que Neymar nunca tentou ser visto.

Um garoto de 18 anos não pode decidir sozinho se aceita ou não ir para a Inglaterra. Não pode se sentir responsável por milhões de euros que vâo e vêm. Não pode bater de frente com empresário, torcida, família e fazer o que bem entende. Se já fosse um atleta com carreira consolidada e com a maturidade de faixa etária correpondente, a história é outra.

Do jeito que anda o noticiário sobre a sua possível transferência para o Chelsea, daqui a pouco Neymar será chamado de mercenário se aceitar a proposta. O próprio empresário chantageia com a possibilidade de ser o melhor jogador do mundo agora ou nunca, como se Neymar não tivesse apenas... 18 anos.

O Santos já se posicionou do ponto de vista profissional: se o clube inglês pagar a multa, o contrato pode ser rescindido. O pai de Neymar deve considerar que seu filho é nome certo na Seleção renovada, é muito novo e mesmo se for embora daqui a dois anos, não chegará tarde à Europa.

Neymar deve continuar com seu compromisso dentro de campo e aproveitar seus 18 anos. A patrulha não o deixa nem curtir com os amigos da sua idade!

De que adianta formar novos craques se queremos que eles já surjam formados? De que adianta prezar pelo bom futebol se deixamos de enxergar os jogadores como pessoas? Deixem Neymar seguir o curso normal da vida...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Colírio!


É inevitável o pensamento a seguir: que diferença da Seleção anterior, hein? Assumo aqui o compromisso de não me referir mais ao Dunga e seus anões, apenas a Mano e seus maninhos. Há muito, muito tempo eu não via um jogo do Brasil com tanto gosto e tão feliz por ver ofensividade e versatilidade saindo pelo ladrão.

Não imaginava que os jogadores convocados, mesmo os que estreariam pela Seleção, fossem sentir o peso. Muitos deles foram cedo para time titular e para o exterior, já estão acostumados a grandes jogos e camisas idem. Fiquei surpreso foi com o entendimento em campo, mais do que entrosamento - que seria impossível em um dia e meio de treinos de um novo grupo.

Mesmo quando a jogada não tinha o desfecho esperado, você percebia que o raciocínio dos atletas era parecido, quase uma afinidade (com exceção de Daniel Alves). Por exemplo: Pato errou o tempo de alguns passes, mas acertava na intenção planejada por quem dava a assistência.

Parece besteira, mas não é. Se esses jogadores mantiverem tal feeling, as coisas pode acontecer bem mais rápido do que se imaginava.

Também nesse sentido, é bom ver que o recado de Mano Menezes foi compreendido em campo. Deslocamentos, vontade de fazer gols, preenchimento de espaços... Tudo assimilado e bem executado. Com exceção do lance de Donovan no início ainda nervoso do Brasil, e na cochilada do final em que Vitor caprichou no reflexo, em nenhum momento os EUA ameaçaram.

Um time com três atacantes de ofício e dois volantes que saem pro jogo pode se defender com competência? Claro, talento e habilidade só contribuem para a tática, sempre. Robinho e Neymar fechavam os espaços e até roubavam bolas, sem abrir mão da chegada à frente, contando com laterais pra tabelar. Com volantes de bom passe e senso de definição, pouquíssimas bolas sobram pro adversário tendo que ser recuperadas.

Foi só um jogo, e ainda há outros atletas a serem convocados. A camisa 9 ainda parece vaga. A 6 precisa de mais testes. Porém, dentro das condições da escolha do técnico, do tempo para conovcação e da grande expectativa levantada, foi um ótimo começo. Dá confiança e tranquilidade para todos os envolvidos no processo da Copa 2014.

Foi um verdadeiro colírio: bom para os olhos, na beleza e na medicina.

PS: E o que foi o gol de Playstation, hein? Ramires apertando triângulo e Pato apertando R1 direto, no macete, passando pelo goleiro...

Análises individuais:

Vitor - Boa atuação de um bom goleiro que não tem presepada (coisa rara no Brasil) e de ótima reposição de bola com as mãos. A sobriedade sempre faz bem à camisa 1;

Daniel Alves - Destoou. Errou passes fáceis, nervosinho, raciocínio lento. Deveria ter sido substituído por Rafael, pois seria uma alteração de jogo e pra experimentar o garoto;

Thiago Silva - Seguro como sempre, nem precisou aparecer;

David Luiz - Roubou a cena de Thiago Silva. Mostrou personalidade e recursos (chuta com os dois pés, é bom na cobertura);

André Santos - Se deixar os lances violentos no passado, como fez hoje, vai ter uma briga boa com Marcelo. Foi sua melhor atuação pela Seleção, cruzamento perfeito no primeiro gol;

Lucas - Excelente proteção à zaga, sem se tornar um eunuco ofensivo. Tem tudo pra tomar conta da camisa 5;

Ramires - Ninguém duvida de seu talento na sua real posição: segundo volante, como hoje. Lindo passe para o gol de Pato, mas tem chegado atrasado nas jogadas, desde a Copa. Tem categoria pra melhorar isso;

Hernanes - Continuou o bom trabalho de Ramires, ficando mais atrás;

Paulo Henrique Ganso - Pelo que já li e ouvi, tenho a impressão de que o camisa 10 é a nova versão de Didi e Ademir da Guia. Não precisa correr nem aparecer o jogo inteiro pra fazer diferença. Não foi uma grande partida, mas vai crescer com o tempo. Pensa muito, muito rápido;

Ederson - Coitado. Merece outra chance, por misericórdia;

Jucilei - Só deu tempo de sentir o gostinho de jogar pela Seleção;

Carlos Eduardo - Ponto pra versatilidade. Joga no ataque, no meio, na lateral, com velocidade. Mostrou um pouco disso no meio hoje;

Neymar - Acabou com o jogo. Parecia jogar uma pelada, de tão leve em campo. Renovou o contrato do drible na Seleção, partiu pra cima, fez um gol de centroavante, jogou pro time... Imprescindível;

Pato - Bom jogo, embora ainda precise de mais confiança pra assumir a camisa 9. Dois gols (um anulado) de oportunismo, que compensa suas atuais deficiências (falta de ritmo e de explosão, por exemplo);

Robinho - Ótimo jogo. Voltou pra armar, chegou à frente rodando o ataque inteiro, chutou a gol, e não ficou mal de capitão. Será que vira gente grande de uma vez por todas?

André - Ainda duvido que tenha vida fora do Santos e de seus colegas Neymar e Ganso. Mas tem idade olímpica, deve ser mais testado;

Diego Tardelli - Será mesmo que tem nível de Seleção?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O voo solo do Santos


Não há no Brasil um time como o Santos. Isso não é uma opinião, é uma constatação. Se Fluminense e Internacional tentam concorrer com a qualidade de elenco e suas opções, a comparação para por aí. O time da Vila Belmiro tem um elenco jovem, que joga no ataque (mesmo que leve muitos gols), que ousa beirando o atrevimento e a marra, que joga bonito, com um técnico humilde. E que é campeão, de novo.

As finais da Copa do Brasil mostraram todo o potencial e os riscos do time do Santos. Um equilíbrio entre jogadores experientes e garotos, mas com o talento e o raciocínio rápido como denominador comum. A correria em busca de todos os gols possíveis e a cadência pra gastar o tempo com o resultado a seu favor. O susto de um pênalti polêmico e a jogada do gol decisivo em Salvador causados pelo atrevimento do mesmo jogador.

Quando o Santos passou dos 100 gols na temporada, foi constatado também que a defesa já tinha levado uns 50. Dorival Jr. afirmou que isso não era um problema, problema seria armar o time contrariando as características ofensivas de seus jogadores. E que a solução seria essa mesma: fazer mais gols do que levar. Não é simples? Essa humildade do comandante do Santos é crucial para o sucesso do time e o máximo aproveitamento de cada atleta.

Dorival pra mim ainda não mostrou que é um grande técnico, mas ao menos seu ego não é maior que seu profissionalismo. Cabia a ele um papel de coadjuvante e auxiliador da voluptuosidade ofensiva e talentosa de Ganso, Neymar e Robinho, e assim o fez. Seu único erro foi querer tirar o camisa 10 na final do Paulistão, mas mostrou maturidade ao não guardar mágoas quando Ganso se recusou a sair.

Eu acho muito engraçado um país que teve Romário, Túlio, Viola e tantos outros marrentos/estrelas ficar tão invocado com um deslumbramento de Neymar. É uma raiva que eu não consigo entender sem ver uma certa inveja no ar.

Se você tivesse 19 anos, fosse cheio da grana e todo o Brasil te adorasse, não seria marrento um só minuto? Com exceção do pênalti na Vila, quando Neymar deixou que sua fama fosse mais importante do que suas tarefas em campo? Deixem o garoto amadurecer no tempo devido, como qualquer pessoa que já teve 19 anos.

Continuo na torcida para que o Santos vença o Campeonato Brasileiro com esse futebol que agrada a todos e resgata nossas melhores tradições - e COM RESULTADO. Se um time perde jogando bonito e automaticamente pensa-se que não dá pra ganhar assim, os Meninos da Vila 2010 invertem o tosco raciocínio. Por que ninguém pensa em jogar bonito quando perde jogando feio? É mais fácil mascarar a mediocridade do que buscar a perfeição...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um ótimo prenúncio


Taí, né, senhores, a primeira conovcação de Mano Menezes como técnico da Seleção brasileira. Além de ser uma lista melhor do que se esperava, a entrevista coletiva do novo comandante demonstrou, pra felicidade geral (e para mim, até surpresa) como ele estava muito, mas muito preparado para ocupar o cargo.

Tanto a convocação como a postura e as respostas de Mano a cada pergunta mostraram, sem alarde e com seriedade, como o técnico acompanha e conhece futebol dentro e fora do Brasil. Parece aquele aluno que não é CDF, mas que se esforça bastante no dever de casa e nas pesquisas pra não se sair mal nas provas. Nem em testes-surpresa, como um convite para técnico da Seleção já tendo que convocar 3 dias depois.

A presença de jogadores como Rafael, do Manchester United, e David Luiz, do Benfica, revela como Mano assiste aos campeonatos internacionais onde há brasileiros em campo. Ele também mostrou como é organizado e se preocupa em ter uma boa estrutura para trabalhar; explicou o que deve fazer o coordenador técnico; como vai partilhar a tomada de decisões; e que vai planejar um calendário para facilitar a liberação de jogadores do exterior.

Citou que se preocupa com o aproveitamento de jogadores da base e em observar esses atletas. No obscuro torneio que a Seleção sub-20 vai disputar no Paraguai, Mano já vai enviar seu auxiliar técnico. Já projeta as Olimpíadas de 2012, sem utilizar da necessária renovação para guardar rancores do passado. "Nenhum jogador que esteve na Copa de 2010 está excluído", disse ele.

Mano também observou que, sem eliminatórias, os adversários terão que ser escolhidos de maneira que dêem trabalho ao Brasil, para testar as capacidades. Fico curioso para saber se a CBF continuará a marcar amistosos contra Seleções do quilate de Omã, Zimbábue etc.

O melhor de tudo é que Mano Menezes mostrou como o respeito dos demais é conquistado, não decretado. Respondeu a todas as perguntas sem abrir mão de seus critérios, que fez questão de explicar quais eram. Sempre educado sem deixar de ser firme, com a segurança de quem leva a sério o que faz.

E é bom ver os Meninos da Vila na lista (até para serem devidamente testados), Alexandre Pato de volta com tudo para garantir sua presença como centroavante e VOLANTES QUE SABEM JOGAR, dito nessas palavras pelo novo técnico.

Foi bom demais pra ser verdade, superando as expectativas. Vamos ver se a CBF e os corneteiros de plantão permitem que Mano Menezes desenvolva suas ideias, fruto de uma mentalidade que parece estar de olho nas raízes do futebol brasileiro e no contexto geral do mundo do futebol.

VEJA A LISTA COMPLETA DOS CONVOCADOS:


Goleiros

Renan (Avaí)

Jefferson (Botafogo)

Victor (Grêmio)

Laterais

Rafael (M. United)

Marcelo (Real Madrid)

André Santos (Fenerbahçe)

Daniel Alves (Barcelona)


Zagueiros

David Luiz (Benfica)

Henrique (Racing S.)

Réver (Atlético-MG)

Thiago Silva (Milan)

Meias

Ederson (Lyon)

Carlos Eduardo (Hoffenheim)

Hernanes (São Paulo)
Sandro (Internacional)

Paulo Henrique Ganso (Santos)

Lucas (Liverpool)

Jucilei (Corinthians)

Ramires (Benfica)

Atacantes

Robinho (Santos)

Neymar (Santos)

Alexandre Pato (Milan)

André (Santos)

Diego Tardelli (Atlético-MG)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A fila anda


Há males que vêm para bem. Se a CBF teimou em não levar a sério a tal da renovação, quis o destino que o "Flunimed" fizesse a justiça que o Brasil esperava. Não liberaram Muricy, que também pode ter pensado nas condições do compromisso de Ricardo Teixeira com sua permanência até a Copa.

Será que esse reconhecimento todo do oligarca-mor do futebol brasileiro duraria até os primeiros perrengues? Felipão à espreita e com larga experiência nas costas poderia assumir até nas vésperas da Copa de 2014, por que não?

A ironia do desfecho foi tamanha que o Fluminense, o clube que mais demite e contrata técnicos ao seu bel-prazer, bateu de frente com a CBF alegando que Muricy tem contrato em vigor, e vai cumpri-lo até o fim. Será que esse reconhecimento vai durar até os primeiros perrengues?

E como a fila anda e segunda-feira já tem convocação para o amistoso de 10 de agosto, Mano Menezes foi chamado e, segundo o site da ESPN, já aceitou. Considero uma boa escolha, pelos seguintes motivos:

- Ele consegue montar um time sólido na defesa sem deixar de ser ofensivo. Assim foi com o Grêmio e o Corinthians, que chegou a jogar com 3 atacantes natos: Ronaldo, Dentinho e Jorge Henrique;

- Não deixa de ser uma renovação, pois Mano apareceu para o cenário brasileiro em 2004, e já conseguiu títulos como a Copa do Brasil, campeonatos estaduais e chegou a uma final de Libertadores;

- Está há 3 anos no Corinthians, um time com grande pressão da torcida espalhada pelo país por títulos e ofensividade: é um estágio para a Seleção;

- Tem mais jeito para disputar mata-matas do que Muricy;

- Tem bom trânsito com dirigentes, imprensa e jogadores, sabendo ser flexível sem ser fraco e firme sem ser cabeça-dura, com todos;

- Aproveita jogadores novos, faz apostas, vai saber renovar o plantel;

- Faz com que seus jogadores desenvolvam novas habilidades. Os já citados Jorge Henrique e Dentinho viraram alas sem deixar de comparecer lá na frente, assim como Elias e Cristian deixaram de ser meros volantes de contenção.

A única coisa que Mano precisa melhorar, e rápido, é parar com a cornetagem de juízes e bandeirinhas durante os jogos.

Pra CBF mostrar de vez que apendeu a lição, poderia chamar Leonardo para alguma função na nova comissão técnica. Coordenador ou auxiliar, pra já ganhar experiência e começar a ser preparado para o futuro, como Joachim Lown, da Alemanha.

Leonardo tem tudo pra ser um novo técnico, com uma visão de mundo bem ampla, podendo ser exemplo de uma nova mentalidade para a categoria. Também tem capacidade para ser o novo diretor de seleções, observando a base e passando informações para Mano.

Nunca pensei que fosse dizer isso, mas... valeu, Fluzão!

Vai dar trabalho, meu filho!

 

Em 2006 o clamor era por um técnico que trouxesse de volta o comprometimento dos jogadores com a Seleção, levando a sério cada convocação. A CBF viu em Dunga esse perfil, a despeito de sua falta de experiência como técnico. Não se pode dizer que foram incoerentes.

Agora, o próprio presidente da CBF já tinha admitido, no 'Bem, Amigos', que Dunga exagerou na guerra com a imprensa, que o próximo técnico terá a responsabilidade de renovar a Seleção. E o clamor público atual é pela volta do autêntico futebol brasileiro, que a Espanha teve que reeditar e ser campeã para nos relembrar disso.

E aí chamam Muricy: um técnico que é tão mal-educado com a imprensa quanto Dunga; que em três anos de São Paulo aproveitou pouquíssimo a base do clube (quando foi demitido, os juniores literalmente soltaram fogos no CT de Cotia); e que, definitivamente, não vai encampar o autêntico futebol brasileiro. É só olhar pro tricolor paulista dos títulos brasileiros e pro Fluminense de agora.

"Ah, ele foi campeão por onde passou". Continuaremos então com o rame-rame do futebol de resultados?

Eu fico impressionado com o cartaz de Muricy com a imprensa de São Paulo. Paulo Vinicius Coelho, da ESPN Brasil, resumiu bem: "Nós somos mais condescendentes com o Muricy", ao falar do mau relacionamento com os jornalistas. E esse cartaz é que minimiza publicamente suas características negativas.

Não escolheria Muricy para a Seleção brasileira. Ok, pode ser questão de gosto. Mas para uma Copa do Mundo no Brasil, com a necessidade de se renovar o time, foi uma péssima escolha.

domingo, 11 de julho de 2010

Erpanha!

O resultado da Copa 2010 mostrou que a justiça e a esperança podem andar juntas, ao menos no futebol. Ganhou o time que jogou na bola, fez menos faltas, buscou o gol (com paciência até demais), privilegiou o talento acima de qualquer coisa. Foi justo o título da Espanha. E também alimenta a esperança de que o estilo campeão influencie o desenrolar do futebol mundo afora.

A Holanda abriu mão da sua tradição usando a mesma lógica burra que vemos por aqui: "se sempre perdi jogando bonito, então para ganhar tenho que jogar feio". Sim, a Laranja foi mais Mecânica do que nunca, perdendo até traços de humanidade: foi o time mais faltoso, o que mais recebeu cartões. Na final, ficou clara a opção por "matar a jogada", quase matando o jogador.

Não exagero. Felipe Van Bommel Melo atingiu todas as partes da anatomia humana, revezando os jogadores espanhóis. De Jong tatuou as travas de sua chuteira no peito de Xabi Alonso, numa disputa de bola que não pedia essa violência. E na cara do juiz, que afinou ao não mostrar o vermelho. Por que os holandeses reclamaram tanto de Howard Webb?

A Espanha mostrou que o futebol deve ser inteligente e gostoso de ser jogado. Quem acompanha os jogos do Barcelona sabe que a extensa troca de passes (sempre certos) até deixar um Messi na cara do gol é característica dos espanhóis. Fazem por que são capazes e porque assim é mais fácil de jogar, isto é, de acordo com o seu potencial devidamente estimulado e desenvolvido.

"Ah, todo time tem que ter ao menos um volante pra roubar a bola, mesmo que não tenha muito talento. Senão, fica exposto". É mesmo? E é esse o perfil de Xabi Alonso, Busquets e Xavi?

"Ah, o técnico tem que impor seu estilo, deixar a sua marca no jeito do time jogar". Pois Luis Aragonés foi campeão da Euro 2008 jogando assim, e Vicente Del Bosque (que é seu desafeto!) manteve o rumo traçado. Pra que violentar a vocação de seus atletas? A Espanha mostra que o orgulho pessoal deve ser deixado de lado, principalmente pelos técnicos. Tática ajuda, mas não chuta pra gol.

Mantenho a crítica à Espanha quanto à falta de objetividade na hora de definir as jogadas. Até fazer o gol, Iniesta irritava por não chutar quando a partida pediu, por duas vezes. Mas é bom lembrar que Fernando Torres, seu melhor finalizador, "não veio" à África do Sul, estando em péssima condições físicas. E Villa definiu 4 jogos dessa campanha.

Passes certos em todos os setores do campo, volantes que sabem jogar e fazer gol, marcação preenchendo espaços sem usar a violência, banco igualmente talentoso, técnico que deixa o protagonismo para os jogadores. Não é um time perfeito, mas que tem a intenção de fazer o melhor, e não apenas fazer o resultado.

Contra os chatos de plantão, idólatras do resultado puro e simples, e preguiçosos em estimular talentos dentro de campo; para os que admiram um futebol bem jogado e por isso vencedor, ESPANHA!!!!!!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A final dos azarões


Brasil, Argentina, Inglaterra, Itália, Alemanha, Holanda e, de uns tempos pra cá, Espanha. Na hora de destacar os favoritos para levarem a Copa do Mundo, são sempre esses os eleitos. Sendo que a Laranja e a Fúria confirmavam sempre a desconfiança implícita da hora do palpite e nunca chegavam na final. Pois bem: os "azarões" dos favoritos vão disputar quem será o primeiro eutopeu campeão fora de seu continente.

Não se pode dizer que é uma final injusta. A Espanha mostra que a derrota no primeiro jogo foi mero acidente de pecurso - embora deva agradecer a David Villa a objetividade que tanto lhe faltou em alguns jogos. A Holanda, cuja diferença de suas últimas campanhas foi não se jogar loucamente ao ataque, faz uma campanha de seis jogos e seis vitórias.

Não se pode condenar a Alemanha pela derrota de hoje. Estava sem Thomas Müller, a válvula de escape mais inteligente da equipe, que não tinha um substituto à altura. E a Espanha jogou sua melhor partida na Copa, empurrando os alemães para dentro do gol deles, se possível.

Se no primeiro tempo ainda faltava um quê de agressividade para assustar de vez os germânicos, ele veio na segunda etapa. Apesar de Iniesta e Xavi serem alérgicos a chutes a gol, Villa, Xabi Alonso e Pedro não eram, e fizeram Neuer suar. Só que a zaga alemã foi perfeita, não perdeu uma só jogada durante toda a partida.

Então, quando os talentos ataque-defesa se anulam, sobressai o inesperado e a raça. Ambos encarnados no gol espanhol: num escanteio, com um "chute" de cabeça de Puyol, o menos habilidoso (e às vezes o mais destrambelhado) do time.

Podemos esperar muitas emoções no jogo de domingo. Holandeses e espanhóis podem entrar para a história do futebol ao vencerem a primeira Copa de seus países. Sneijder e Villa disputando o título de melhor jogador do torneio. Um cochilo da marcação pode significar o resultado final.

A Espanha tem muito mais habilidade, porém carece de definição. A Holanda mascara a habilidade que tem compensando com um poder de definição cruel (vide o jogo com o Uruguai). A partida já começou, psicologicamente.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uruguainazzo!


Não tenho dúvidas que a torcida mais orgulhosa de sua seleção nessa Copa é a uruguaia. Os alemães podem estar felizes o futebol-total germânico, mas o que a Celeste Olímpica fez na África do Sul, com todas as suas limitações, é pra ficar na história.

É preciso lembrar que o Uruguai classificou-se para a Copa numa repescagem contra a Costa Rica. Depois de vencer fora de casa, empatou em Montevidéu no sufoco. A desconfiança, pra não dizer descrédito absoluto, era o sentimento reinante na torcida, na imprensa, nos críticos.

No sorteio dos grupos, viu que ia enfrentar a França, já campeã mundial; a anfitriã África do Sul; e o experiente México. Difícil imaginar que sequer passaria de fase. Mas foi líder do grupo, sem levar gols. Depois, passou pela Coreia do Sul e então houve o épico jogo contra Gana.

Talvez a missão uruguaia já estivesse cumprida, com esse elenco já tinha feito muito além do que se esperava. Mas a Celeste Olímpica evocou seus antepassados e encarnou uma garra incrível contra a favorita Holanda. A marcação não permitia que a defesa laranja respirasse, os craques Sneijder e Robben só apareciam para reclamar do juiz.

Até que a Holanda fez um golaço de fora da área, talvez a senha para que o Uruguai partisse pro ataque e esperasse a goleada. Mas não. Fórlan e seus companheiros parecem ser a seleção mais equilibrada emocionalmente dessa Copa. Aumentaram o volume de jogo e o camisa 10 acertou mais um chute venenoso, empatando. A Jabulani é o "Wilson" de Fórlan.

No segundo tempo, cadê a Holanda? Se faltava ao Uruguai um atacante com faro de gol (era Suárez, o herói anti-herói, que estava fora), sobrava disposição para sufocar a laranja assustada, criar jogadas, rondar o gol de Stekelemburg.

Mas o talento individual falou mais alto. Sneijder acertou um chute cruzado; Kuyt, no único lance em que ficou livre de marcação, deixou a bola na cabeça de Robben. E foi tudo o que a Holanda fez em mais de 90 minutos de jogo.

Só que a raça uruguaia continuava à flor da pele. Foram pra cima, do jeito que dava, iam morrer de pé. E aos 47 fazem o segundo gol, trazendo de volta as altas emoções numa Copa marcada pelos cautelosos contra-ataques. A laranja surpresa pedia que o juiz acabasse logo aquela tortura.

Mesmo que fiquem em 4º lugar, o Uruguai fez uma campanha milagrosa, mas à custa de muito trabalho. A Holanda me parece um "déja vù" do Brasil: prefere os contra-ataques, tem 3 jogadores que fazem a diferença, nervosinhos, fazem um jogo chato. E estão catimbeiros como os Argentinos! Já escolhi um time pra torcer contra, e nem tem a ver com a vitória sobre a gente.

sábado, 3 de julho de 2010

De cinema! De cinema!


Acabei não escrevendo sobre Uruguai x Gana ontem, e pensei ter perdido o timing. Mas ao rever os lances hoje nos telejornais esportivos, não resisti. Foi daquelas partidas em que se entende porque o futebol é um esporte que fascina o mundo inteiro, independente de raça, religião, classe social, localidade geográfica.

Quem imaginaria que tudo aquilo poderia acontecer num jogo de seleções sobre as quais nenhuma boa expectativa pairava antes da Copa? O que mais me cativou foi o revezamento dos papéis de herói/vilão e do humor das torcidas.

O goleiro uruguaio estava mal colocado quando Muntari chutou quase do meio-campo pra fazer 1 x 0 Gana. Muslera virou candidato a vilão.

Nos acréscimos da prorrogação, o atacante Suárez evita um gol, com os pés, em cima da linha: candidato a herói. No lance seguinte, evita outro do mesmo local, usando as duas mãos. Pênalti para a Gana, Suárez expulso: candidato a vilão.

Gyan, que já tinha feito dois gols em cobranças de pênalti nessa Copa, se apresentou para levar a última seleção africana presente no torneio a ser a primeira seleção africana presente em semifinais. Virou candidato a herói.

Mas o atacante ganês perdeu o pênalti, virou vilão. Suárez então volta a ser herói, com o detalhe de ter se sacrificado pela nação uruguaia: estava fora do jogo e de uma possível semifinal.

Nos pênaltis, o goleiro uruguaio defendeu duas cobranças. Deixou de ser vilão, virou herói. E na cobrança final, Sebastian "Loco" Abreu, no começo do chute, honrou o apelido e tinha tudo pra ser vilão. E dos mais inconsequentes! Mas a bola morreu nas redes de Kingson, que se fosse flamenguista, ficaria estático no meio do gol. O camisa 13 uruguaio virou herói.

Foi preciso que um jogador infrigisse descaradamente as regras do futebol (evitar um gol com a mão) para que a grande maioria das emoções acontecesse. Apostou alto na roleta do esporte (já ia ser gol mesmo) e foi devidamente punido com o cartão vermelho.

Mas quem disse que o futebol tem lógica?

Por que tantos tentam encaixotar o futebol para que ele não nos proporcione mais surpresas como essas?

Por que tantos tentam transformar o futebol numa coisa mecânica, sem vida, sem riscos, sem humanidade?

Pois a genética do futebol mostra-se resistente perante seus exterminadores travestidos de sábios do esporte. E faz com que Uruguai x Gana torne-se um jogo que vai entrar para a história. Porque não são apenas os resultados ou as táticas que fazem a graça do futebol.

Danker!


(Foto: Globoesporte.com)

Futebol é gol. Vitórias e títulos só são alcançados por quem faz mais gols. O gol é a alegria maior da torcida e a principal recompensa de um trabalho bem feito. É o último momento da jogada bem sucedida. E a Alemanha está lembrando aos pseudo-doutores chatonildos do futebol que buscar o gol é a principal missão de qualquer time que entre em campo.

Foi assim contra a fraca Austrália, a badalada Inglaterra e à irresponsável Argentina. Irresponsável sim, pois simplesmente não convocou jogadores de defesa. Maradona e Dunga cometeram os mesmos erros: não levaram opções de banco. No caso brasileiro, para o meio-campo.

Mas quero falar da Alemanha. Com sua atemporal frieza, é um time que não "rifa" a bola, não dá chutões, não é violento, não faz catimba e não abdica do objetivo máximo do futebol: fazer gols. Hoje já estamos modorrentamente acostumados à entrada de um defensor e à timidez ofensiva quando um placar seguro é construído. Sendo que esse placar seguro é sempre relativo.

Os alemães, que fizeram uma excelente renovação de talentos (Joachim Lown para técnico do Brasil!), não param de buscar o gol a um só instante. Têm um bom goleiro, uma defesa sólida, um meio-campo que tanto defende como ataca, um ataque objetivo e plural. Em suma, é um time equilibrado.

Porém de nada adianta ser um time equilibrado se o técnico começa a incutir na cultura desses jogadores a necessidade de se encolher em campo, de ficar satisfeito com um 2 x 0. Não. Essa Alemanha faz um, dois, três gols e busca o quarto tento como se ainda estivesse  0 x 0. São nada menos que oito gols feitos em duas fases eliminatórias da Copa, contra adversários tradicionais e campeões do mundo.

O que falar da Argentina? De que adianta ter os melhores atacantes da Copa se do meio pra trás é um desastre total? Todos, do goleiro ao lateral-esquerdo, jogam no time da pizzaria: adoram entregar.

O que Alemanha faz na África do Sul é uma mudança cultural. Que pode ser replicada por todo o mundo se ela sagrar-se campeã jogando esse futebol ofensivo e massacrante.

PS: "Danker" = "Obrigado", em alemão

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Laranja mecânica mesmo: sangue frio nas veias



Ganhou o time que jogou melhor. Não há outra explicação para essa partida entre Brasil x Holanda. No primeiro tempo sufocamos como poucas vezes se viu uma seleção fazer nessa Copa, e poderíamos ter matado o jogo. No segundo tempo, os holandeses mostraram que o equilíbrio entre as equipes existia no futebol, mas não no lado emocional.

Foi a grande surpresa do Brasil: por que o time se mostrou tão nervoso na África do Sul? Foi assim contra Costa do Marfim, Portugal, Chile e Holanda. Hoje, com dois minutos de partida, Robinho encarava um zagueiro de maneira desproporcional. O árbitro era pequeno demais para um jogo dessa importância, mas isso não explica o destempero GENERALIZADO dos brasileiros.

Não concordo com a ideia de que, se tivéssemos no banco alguém capaz de desequilibrar, mais talentoso, o resultado poderia ser diferente. Não nessa partida. Ronaldinho Gaúcho, Neymar, Ganso... Todos iam entrar naquela "pilha" em que até os jogadores mais experientes já tinham embarcado. Enquanto tivemos os nervos no lugar, vencemos a Holanda com o time que estava em campo.

E aqui fica o meu pedido aos torcedores, imprensa esportiva, apresentadores de TV, formadores de opinião: NÃO DEMONIZEM FELIPE MELO. Quem acompanha este blog sabe o quanto critico esse jogador, concordo que não deveria ter ido à Copa, era uma bomba-relógio ambulante etc. Mas hoje ficou claro que todo o time se descontrolou, e não foi a primeira vez, conforme já citado.

Felipe Melo surpreendeu o mundo dando um passe magistral para o primeiro gol do Brasil. No empate, a falha foi de Júlio César (que não gritou e saiu mal). E no momento da expulsão - sem dúvida, um destempero característico do jogador - o jogo já estava 1x2, sem a menor perspectiva de que o Brasil viraria, mesmo com ele. E a Holanda não aproveitou a vantagem de mais um em campo.

Acho um equívoco, pra não falar crime, colocar nos ombros de um atleta todo o fracasso, e ecoar isso milhares de vezes, transformando-o num pária social. Repito: formadores de opinião, imprensa etc têm a RESPONSABILIDADE de não deixar isso acontecer. O futebol é vencido e perdido coletivamente. E nenhum esportista pode ser tratado como um câncer a ser extirpado da sociedade pelo que fez ou deixou de fazer em campo. É muito fácil eleger um Judas e malhá-lo eternamente.

O que lamento é ver Robinho tão nervoso e sumido do jogo do segundo tempo. O mesmo para Luís Fabiano, que sequer voltava pra buscar jogo. Kaká ainda tentou, e está nítido que não está na sua melhor forma física. Será que a contusão no púbis é pior do que se imaginava?

De novo, o campeão da Copa das Confederações não leva a Copa do Mundo. Será que (conforme apontou Lúcio de Castro na ESPN) as equipes chegam o seu máximo um ano antes e começam dali uma certa decadência física?

Agora Dunga deve saber lidar com as críticas e reconhecer (ainda que para si) se suas escolhas foram certas. Adiantou o time ficar tão fechado? Se o objetivo era deixar os jogadores focados, por que perderam o foco no momento decisivo? Por que levar jogadores sobre os quais ele não tinha a menor confiança pra colocar em campo, como Kléberson e Grafite? O que foi feito, após o jogo contra a Costa do Marfim, para acalmar os ânimos dos jogadores?

E Felipão vem aí...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eu já sabia

Foto: EFE

Eu sei que o título do post é batido e parece gaiatice falar assim após o jogo do Brasil. Mas as críticas não foram mais fortes ao time do Chile antes da partida por puro respeito. Além de jogar ofensivamente, deixando espaços para o contra-ataque, estavam desfalcados e são fregueses contumazes da Seleção. Ganhamos de 3 x 0 deles em Santiago nas Eliminatórias, por exemplo.

E depois de um início claudicante, melhoramos um pouquinho e resolvemos as oitavas-de-final de maneira ainda mais fácil que a Argentina diante do México. Por isso acho que o Brasil tem tudo pra chegar à final: Kaká, Robinho e Luís Fabiano jogam metade do que sabem e conseguem levar o time aos bons resultados.

Até porque nossa defesa está sensacional. Nada passa por Júlio César, Maicon, Lúcio e Juan, e os três últimos também atacam e fazem gol. A exceção é o "bola da vez" Michel Bastos, que nunca foi lateral-esquerdo até ser convocado por Dunga. Mas que não comprometeu no jogo de hoje, e quase fez um golaço.

Porém o nome do jogo foi Ramires. É o volante ideal, assim como Ibson, ex-Flamengo, ou Hernanes do São Paulo: sabe ser volante e jogar ofensivamente. Atletas como ele provam que o futebol não precisa ser tão simplista (ou ataca ou defende, e só). A arrancada para o terceiro gol, os passes precisos, a personalidade. Mas, ironia das ironias, está suspenso por cartão amarelo e ninguém menos que o destemperado Felipe Melo deve voltar ao time.

Quer outra ironia (ao menos, para este blogueiro)? Elano faz falta. Com as recentes atuações, Daniel Alves voltou a ser o reserva de Maicon.

A Holanda brincou com a sorte diante da Eslováquia, mas passou às quartas-de-final. Mais uma ótima geração laranja, com o "sinuqueiro" Robben encaçapando gols no limite dos espaços. Aliás, nesse aspecto, o atacante holandês e Messi desafiam a Física e a história do futebol no quesito "o espaço necessário para se chutar a gol".

Brasil x Holanda, Alemanha x Argentina. E amanhã, ainda pelas oitavas, Espanha x Portugal. Todos com grandes elencos. Que Copa!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Treino fechado não esconde burocracia


E hoje foram, mais uma vez, escancaradas as duas únicas ameaças ao hexa: encontrar um adversário que se feche bem na defesa e a escassez de talento no banco de reservas. Portugal jogou muito bem e mostrou que tem futuro nessa Copa, e foi só Robinho e Kaká sumirem do mapa pro futebol do Brasil ir junto.

Curioso é que não adianta a comissão técnica ficar ocultando informações, pois em algum momento elas virão à tona. Se a princípio Júlio César estava 100%, agora já se viu que ele joga com uma proteção nas costas - menos mal que ele parece mesmo estar 100%, mas pra que esconder isso? E se a ausência de Robinho parecia uma opção tática de um time classificado, revelou-se algum problema extra, até que algum desmentido (como o que informou as perfeitas condições do goleiro) diga o contrário, sem credibilidade.

O certo é que Portugal jogou atrás, mas com volume de jogo pra atacar na hora certa. E, diferente de seleções como Coreia, Bolívia e afins, tem um mínimo de talento e ao menos um jogador fora de série (Ronaldo) para arrancar os cabelos da zaga brasileira. Isso já é meio caminho andado pra se dar bem contra o Brasil. Se Juan não intercepta aquela bola no primeiro tempo...

Porém o mais preocupante é a falta de opções brasileiras para se mudar a cara de um jogo. E o que é pior: a conta tende a ficar para os jogadores. Se Dunga acertou ao tirar o pitboy Felipe Melo, errou ao convocar (e escalar) atletas que não têm condições de atuar com a camisa da Seleção numa Copa. Coitados de Michel Bastos, Josué, Julio Baptista e Grafite, foram colocados numa roubada que o futebol deles não esperava. E o técnico brasileiro ainda fica irritadinho com os erros em campo... Ô Dunga, alguém já te pediu pra fazer um "elástico" quando você jogava? Então...

Continuo achando que o Brasil tem chances nessa Copa se Kaká e Robinho jogarem e, no máximo, Nilmar  e Ramires entrarem para mudar o jogo (e Daniel Alves, que hoje teve um mau dia). Faltam treinamentos para jogadas pelo lado esquerdo, e Ramires precisa ser melhor aproveitado - como volante no lugar de Felipe Melo, que tal?

Se eventualmente chegarmos numa final contra a Argentina (é o meu palpite), ao menos os hermanos não sabem jogar atrás. Assim como Espanha, Chile, Paraguai... A Alemanha tem tudo pra perder da Inglaterra, essa sim com grandes condições de crescer na Copa.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sonhar já custa menos

Gostei da estréia do Brasil. E, além da Alemanha, pode-se dizer que nossa Seleção foi outra das favoritas ao título que mostrou conjunto, com um time onde cada jogador sabe o que tem que fazer em campo, tanto individual quanto coletivamente. Itália e Argentina eram um bando, e a Espanha mostrou pouco poder de decisão.

Para um time em que metade dos jogadores nunca jogou uma Copa, contra um adversário fraco porém mega retrancado, o 2 x 1 só saiu caro por termos levado um gol. Mas a vitória veio, e isso porque o até então teimoso Dunga mexeu no time quando foi necessário, tornando-o, veja só, mais ofensivo.

O problema é que o péssimo relacionamento entre Dunga e a imprensa prejudica a melhor análise sobre o rendimento da Seleção em campo – que é o que mais interessa. Este blog criticou o técnico quando isso se justificava, mas é preciso reconhecer os seus méritos, que apareceram já no primeiro jogo da Copa.

Primeiro: o espírito de grupo (que na minha opinião não precisava ser de quartel), matou as possíveis vaidades. É um problema a menos na hora de definir quem é titular e quem é reserva. Nada de pirraças durante as substituições, por exemplo.

E se Elano é um jogador burocrático (e é mesmo), ao menos tem seus lampejos de proatividade. Foi dele o passe para deixar Maicon usar o talento que tem e fazer um gol  “à la Gigghia”. Depois, graças ao entrosamento da Seleção, apareceu bem pra fazer o segundo. E aí bateu o ponto, saiu e já estava de bom tamanho.

Dunga também provou que Julio Baptista não é o natural substituto de Kaká, e sim Robinho. O mesmo esquema utilizado na Copa América de 2007, agora com a entrada do esperto Nilmar pra compor o ataque. O lindo passe do jogador do Santos para o segundo gol provou que a alternativa é boa.

Daniel Alves e Ramires entraram, mudando a cara da Seleção. Sim, eles poderiam começar jogando, e Dunga cada vez mais parece simpático à idéia. Mas enquanto isso não acontece, acaba sendo um fator surpresa – assim como Nilmar. E não se pode colocar na conta do técnico a falta de ritmo de Kaká e Luís Fabiano.

Enfim, não concordo com a opinião geral da imprensa esportiva de que foi uma estréia ruim. Foi a estréia possível, que mostrou as qualidades (conjunto, opções de elenco) e os defeitos (time titular ainda sem a devida iniciativa ou sem estar 100% fisicamente, casos de Luís Fabiano e Kaká).

Dunga escolheu um método de trabalho: fechar o grupo, restringir contato com a imprensa, não se render a lobbies de última hora etc. Concordando ou não, foi uma decisão que ele tomou. Além disso, o técnico faz questão de expor as precipitações e limitações dos jornalistas esportivos. A tensão entre as partes aumenta, o que é natural.

Mas não adianta os profissionais de imprensa fazerem beicinho e quererem vilanizar Dunga a qualquer custo. Vamos falar de futebol, antes de tudo. O Brasil jogou bem, embora possa melhorar. E encerro com três grandes pérolas do técnico, com as quais concordo plenamente. Todas servem de reflexão para o tipo de jornalismo esportivo que se faz no país:

SOBRE OS TREINOS FECHADOS:

“É uma nova forma de trabalhar, e vocês, da imprensa, não estão acostumados. Mas assim como vocês cobram criatividade da Seleção, podem se tornar criativos na hora de cobrir a Seleção.”

SOBRE A FAMA DE RABUGENTO:

“Eu apanho de manhã à noite e, quando dou uma resposta atravessada, sou rancoroso, rabugento. E vocês (jornalistas) se acham, sempre, simpáticos, bem-humorados... Mas vocês têm 24 horas pra me bater e eu só um minuto pra responder.”

RESPONDENDO AO ELOGIO DE UM JORNALISTA À ATUAÇÃO DE ROBINHO:

“Pois é, quando ele estava no Manchester City queriam que eu parasse de convocá-lo. Você mesmo era um desses, né? O problema é que eu tenho memória de elefante, lembro de tudo...”

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Eu, brasileiro, lamento

Triste ver que Didier Drogba, atacante da Costa do Marfim, pode ficar fora da Copa do Mundo. No mínimo, já está com a participação prejudicada, pois a solução seria uma cirurgia no braço esquerdo para entrar em campo dois dias depois.

Há quem fique aliviado por ser menos um perigoso adversário a enfrentar o Brasil na primeira fase. Quem gosta de futebol bem jogado, discorda. Drogba é um centroavante raro atualmente: é forte sem deixar de ser rápido, com técnica para armar e concluir todo tipo de jogada. A Copa perde o brilho sem ele.

Do mesmo modo, não consigo engrossar o coro dos que torcem contra a Argentina em toda e qualquer situação. Sim, há uma rivalidade e Maradona não aposenta sua "marra", mas racionalmente falando, o sempre vistoso futebol dos hermanos dá gosto de ver. E se não queremos uma explosão mundial de "São Paulos à la Muricy", times que sabem jogar devem sempre chegar o mais longe possível.

E afinal, queremos ser campeões jogando contra times meia-boca? Um dos grandes orgulhos canarinhos do ano foi ver o capitão Lúcio anulando Drogba na Liga dos Campeões da Europa. E quero ver Cristiano Ronaldo "voando" contra o Brasil, para que tenhamos a chance de provar que em campo podemos ser melhores. Quero gritar "Ô Messi, pode esperar, que a tua hora vai chegar!". E enquanto não chega, ver o argentino entortando todo mundo pela frente.

Veja só: no mulambado amistoso com Zimbábue vimos três golaços do Brasil. Não é legal? Até o sisudo Dunga levantou pra aplaudir e (quiçá!) pode ter pensado como é bom jogar bem e bonito, com prazer e não só dever.

A Copa já não tem Beckham, Ballack, pode ficar sem Drogba. Mas Felipe Melo segue com sua saúde de ferro. E já encontrou um gêmeo: a entrada de Tanaka no centroavante marfinense, levantando o pé daquele jeito no meio-de-campo, mostra que os representantes do Açougue Futebol Clube não vão deixar os artistas da bola impunes.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A revolta dos palhaços

Como diria Charles Henriquepédia, o mais novo integrante do Pânico na TV: "esse Felipe Melo é um brincalhão". A mesma destemperança (ou seria falta de inteligência?) que o desgovernado volante exibe em campo aparece fora dos gramados.

Primeiro, bateu boca com o jornalista Paulo Vinicius Coelho, da ESPN Brasil, quando recebeu um questionamento sem a penugem da Globo. Poderia ter respondido com o tom da superação, mas preferiu mostrar as travas do Kichute. Nem quando se desculpou fez diferente.

Agora, em entrevista coletiva, mostra que é o discípulo de Dunga no quesito rancor. Foram muitas declarações polêmicas, mas destaco apenas a mais emblemática: 

"Os números dizem tudo, o que vale é o resultado. Temos que parar com esta palhaçada de ficar criticando!"

Acho que o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, acabou de perder o emprego. Ninguém expressou melhor o ponto de vista dessa Seleção, desse técnico, desse grupo. Resultado acima de tudo, e as críticas são coisa de palhaço.

Felipe Melo ainda vocifera contra a mídia, que parece ser sempre do contra e, não importam as convocações, inventam nomes a serem pedidos. Concordo que a imprensa esportiva deve repensar seus arroubos extremistas, mas como viver num mundo sem críticas? Como ser um jogador de futebol brasileiro, com visibilidade global, sem achar que será criticado?

Os profissionais do esporte mais popular do pais estão muito mal acostumados com a Escola Galvão Bueno de Jornalismo, especialista em fazê-los sorrir mesmo quando não merecem, mesmo quando precisam repensar seus caminhos. E esses atletas/técnicos também não percebem que é essa mesma Escola que os execra sem piedade quando convém (vide Roberto Carlos e o meião).

Se os números dizem tudo, e Felipe cita os seus próprios na Juventus, podemos então dizer que ele é um fracassado. O que ele ganhou na Itália? Nada, assim como a Seleção de 82, que o "Dunguinha" cita na mesma entrevista, com desprezo.

E ainda sobra pros palhaços, coitados.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Dunganation

Depois de umas férias forçadas do blog, consegui voltar. Mas como todo mundo já disse tudo e mais um pouco sobre a convocação do Brasil para a Copa 2010, listo apenas as perguntas que ficaram sem resposta:

- Se Ganso e Neymar não foram convocados por falta de experiência na seleção principal, por que Grafite, com 26 minutos jogados pelo Brasil, vai à Copa?

- Se a justificativa para levar Grafite é para ter um outro centroavante "trombador" como reserva de Luís Fabiano, por que não há um outro jogador assim na lista de espera? Caso um dos dois se machuque, o reserva é o magrelinho veloz Diego Tardelli;

- E por que Ganso está na lista reserva, correndo o risco de entrar na Copa sem a tal experiência?

- Por que Jorginho se irritou tanto ao compararem a situação de Neymar à de Pelé em 1958? Pelé não era o Rei do Futebol antes da Copa da Suécia (aliás, era reserva).

Confesso que estou sem estômago para as questões extra-campo da Copa do Mundo. Estou ansioso pra ver logo os jogadores em campo, a bola rolando, que é o que mais importa.

É muito difícil viver num mundo tão extremista, numa dinâmica em que o próprio Dunga acaba sendo, com toda a sua voluptuosidade, um excelente bode expiatório para qualquer que seja o resultado. Se vencer, gênio; se perder, fez tudo errado. Não consigo pensar dessa maneira.

Mas também não aceito sofrer maus-tratos. Ligar a TV para ouvir xingamentos de técnicos em coletivas ou ter que aturar o jornalismo esportivo brasileiro (salvo a exceção de PVC e alguns outros da ESPN Brasil) cobrindo uma Copa do Mundo como se eu não tivesse cérebro, é dose.

Esse 11 de junho vai demorar a chegar...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Alegria, alegria

O Santos é Neymar e mais dez.

O Santos é Neymar.

O Campeonato Paulista é Neymar.

O Brasil é Neymar.

Se o Santos vai ser uma Seleção de 82 - que jogou bonito mas não ganhou - só o Santo André poderá dizer.

Mas de quem vamos falar daqui a alguns anos? "O que era aquele Santos do Neymar, hein?". De maneira que eu não me importo com os títulos que esse time possa ganhar ou não. Claro, não sou santista, fica mais fácil pensar assim.

Só que o Santos de Neymar faz muito mais do que uma ótima campanha num campeonato estadual. Ele mostra que apesar da desorganização de nosso futebol, da sanha exportadora de craques cada vez mais imberbes, do futebolismo carrancudo de resultados... ainda há alegria.

A alegria de Pelé e Garrincha, a que eles sentiam e a que causavam, está revelada em Neymar e cia. Isso não é pouca coisa, e não há título no mundo que seja grande o bastante para legitimar isso.

Assim como a flor citada por Carlos Drummond de Andrade, o futebol da Vila Belmiro em 2010 atropela os malfeitores e ousa sorrir (com a diferença que o futebol do Santos não é feio):

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

(...)

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Nenhuma novidade

Alguém duvida que o Carioca 2010 será um título inesquecível para a torcida do Botafogo? Se essa frase fosse proferida no final do ano passado, e até no começo deste ano... Mas olhando para o que foi o campeonato, alguém discorda que o Glorioso foi o time mais arrumado?

Quando se diz que há uma responsabilidade grande de Joel Santana na ressurreição alvinegra pode-se evocar o jeitão do técnico, sua capacidade de motivar, mas também sua competência em armar o time com o que tem nas mãos. Claro que Joel entrou sem pressão alguma, o que facilita.

"Sem pressão??" É isso mesmo, sem pressão. Depois do 0 x 6 pro Vasco, quem tinha alguma expectativa com o Botafogo? Sobre o Fla estrelado e campeão brasileiro, o Flu reforçado e entrosado após a luta contra o rebaixamento e o Vasco voltando por cima da série B, era exatamente o contrário.

Então enquanto a torcida botafoguense não levava fé e não tinha o que cobrar (nem elenco decente ela tinha), Joel contou com a confiança devota da diretoria e mostrou ao grupo o  pouco que eles tinham de bom. E que deveriam ser os melhores nesse pouco.

Os rivais, com sua gama de possibilidades de escalação, variação de jogadas, competições paralelas que disputavam atenção com o Carioca, não sabiam direito no que se concentrar. O Botafogo sabia: em fazer uma campanha digna e saber que, numa competição de baixo nível e com tiro curto, era sua grande chance de redenção.

E foi com essa confissão de fé que o Botafogo realizou a sua "procissão". E a cada "milagre" realizado, maior a crença de que algo mais era possível. Desbancou o Flamengo quando o rubro-negro ainda impunha respeito; expôs as fraquezas táticas do Vasco e conseguiu o primeiro grito de campeão; aproveitou-se da indefinição tricolor e venceu de virada o Fluminense; e chutou cachorro morto ao vencer o Fla na decisão da Taça Rio.

O Campeonato Carioca é um feijão com arroz básico (e se continuar do jeito que está, vai virar um feijão com farinha, no máximo). Mas Joel Santana não tem nada com isso e mais uma vez entregou sua especialidade: um saboroso feijão com arroz, daqueles que nem a mamãe faria.

Após a ressaca geral, resta ao Botafogo decidir: está satisfeito com o básico, ou vai partir para culinárias mais refinadas?

sexta-feira, 19 de março de 2010

A quase vitória dos chatos

O Chelsea quer levar Neymar. Estava demorando que voltasse a aparecer uma proposta milionária pelo craque da Vila Belmiro - a primeira veio do Real Madrid, antes da fama, tentando um projeto "Messi 2". Não me surpreenderia se o garoto quiser mudar de ares, mas por motivos bem diferentes da maioria dos seus contemporâneos.

Neymar tem apresentado maturidade em forma de frieza dentro de campo. Ainda em seus 19 anos não sente o peso de ser uma estrela, o principal jogador, o mais visado pelos marcadores e pelas cobranças em geral. Seja diante de um timeco ou num clássico, Neymar é sempre o mesmo: parte pra cima, não se intimida, faz gol, dribla, firula e tudo o mais.

Só que desde que humilhou o time de segunda maior torcida do país, Neymar passou a ser patrulhado como nunca antes. Se o chapéu em Chicão foi desnecessário e irritou, quando o santista justificou-se dizendo que fez porque "deu vontade", aí é que o moralismo hipócrita e subalterno não o deixou em paz.

Em vez de fazerem como o time do Palmeiras - revidando a provocação na mesma moeda, com gols e dancinhas - todo o resto do Brasil usou dos mais variados argumentos para que olhássemos Neymar como um inconsequente. E que em breve ia pagar o pato, quem sabe até fisicamente.

Fiquei impressionado em ver como a crítica esportiva e seus protagonistas se habituaram a, veementemente, condenar a malemolência brasileira que sempre existiu no futebol. Não se pega no pé dos técnicos que mandam bater, nos árbitros que não coíbem a violência, nos dirigentes que não honram as dívidas dos clubes... A bronca é sempre maior com quem joga o tal futebol bonito.

E aí Neymar vai jogando, sendo patrulhado por árbitros, marcadores e até colegas goleadores que já passaram pela mesma coisa (Ronaldo). A expulsão diante do Palmeiras, depois de apanhar o jogo inteiro, parece ter sido o primeiro momento em que o garoto cedeu à pressão. Nada mais natural.

Mas já querem dar um gancho de 18 jogos, como se ele fosse o único atleta atual a falar desaforo para o juiz.

Assim, se os demais garotos de sua idade querem ir pra Europa para se destacar mundialmente e ganhar mais dinheiro, Neymar pode ter mais um motivo pra cair fora do país: está sendo muito penoso para o santista ser ele mesmo.

Ou Neymar deixa de ser Neymar e começa a jogar um futebol "mais do mesmo" - sem ousadia, picardia e chiadeira contra a violência - ou ele não serve para o cenário atual do futebol brasileiro. Porque na onda troglodita que se apodera de nossos campos e estádios, não vai faltar gente querendo que alguém "dê uma lição" em Neymar. Ou que tudo o que ele faz é apenas firula sem propósito.

Talvez em um cenário mais civilizado (e não estou sendo eurocêntrico) Neymar possa exibir sua arte e ser aplaudido por todas as torcidas - como acontece com Messi, Tevez ou Cristiano Ronaldo por onde quer que passem. Que Neymar encontre um lugar onde ele possa ser sempre Neymar.

É curioso: parece que o futebol brasileiro só tem chance de sobreviver ao se afastar de suas paragens. A mentalidade coronelista e colonialista continua reinando, levando Neymar e assemelhados para o sacrifício.