terça-feira, 6 de maio de 2008

Sob a batuta de quem sabe

A primeira grande entrevista do Futebol Racional foi com um grande craque brasileiro: Junior, o eterno “Maestro” do Flamengo. Campeão carioca, brasileiro, da Libertadores e Mundial pelo rubro-negro. Considerado um dos melhores laterais da história do futebol.

Na casa de sua mãe, em Copacabana, ele falou sobre as diferenças do futebol de ontem e de hoje, preconceitos, decepção com dirigentes. E dá graças a Deus por ter jogado a Copa de 82.

Hoje publicamos a primeira parte da entrevista. Aproveite a condução verbal do Maestro:

FUTEBOL RACIONAL - Você jogou nas duas laterais e depois foi pro meio-campo. Quais as principais diferenças entre os jogadores dessas posições da sua época para os de hoje?

JUNIOR – Hoje não tem mais lateral, né? Você tem alas. E acabaram os pontas. A gente ficava na véspera do jogo pensando: “Caramba, amanhã vou ter pela frente Wilsinho, Robertinho, Nilton Batata, Valdomiro, Narciso...”. E hoje? Lateral vai marcar lateral? Jogar de lateral hoje é uma “teta”. Quem dera. Antes era difícil: ponta-direita e ponta-esquerda dos bons, rápidos, velozes.

A própria carência do Brasil [hoje] faz muitos laterais passarem a ser meias. Cada time tinha um camisa 10 de tirar o chapéu, um meia-direita excepcional, dois laterais bons. A carência hoje faz com que você improvise e “queime etapas” pra certos jogadores.

É o caso do Ibson (meio-campo do Flamengo): ele é um cabeça-de-área que se tornou um bom meia. Mas se ele tivesse se fixado na posição original teria sido um excelente cabeça-de-área, porque além de marcar bem, passava bem e chegava bem na frente.

FR – Falando da relação entre jogador e clube, a sua geração teve algo diferente nesse sentido.

J – Não existem termos de comparação. Primeiro, que se jogava por outros valores, não necessariamente financeiros. As pessoas sabiam o quanto o clube era importante, o quanto representávamos para o clube, o quanto poderíamos representar ainda. A quantidade de propostas que foram negadas foi grande, porque nos sentíamos bem ali. Você cria uma relação de identificação. Será que nós nos comportaríamos dessa forma hoje? Não sei.

O Flamengo era o clube que melhor pagava, ninguém queria sair e todo mundo queria ir pra lá. Em 81 o Real Madri fez uma proposta pra mim, e eu disse: “não, obrigado”.

FR – Com esse clima não havia “noitadas”, indisciplinas?

J – Havia, mas quem andasse fora da linha e não se “enquadrava” na estrutura daquele Flamengo não era aceito pelo grupo. Alguns a gente teve que recuperar, era uma coisa que fazia parte da obrigação do grupo. A gente sabia que um jogador tinha família no Brasil e falava pra ele: “não vai gastar o dinheiro todo na excursão, segura a onda, lembra da tua família”. Isso era uma preocupação de todos.

FR – E esse clima de família, de grupo compromissado uns com os outros, ainda é possível hoje?

J – O Botafogo do Cuca é a maior demonstração isso. É um grupo cúmplice, comprometido com os objetivos traçados. Uma ovelha pode desgarrar. Se três ovelhas desgarrarem, você não chega. O Cuca é o responsável, pois ele deve ter vivido isso em outras situações.


CAPITÃO COUTINHO

FR - Qual a contribuição do técnico Cláudio Coutinho naquela geração do Flamengo?

J - Tive a primeira experiência com o “Capitão” em 1976, nas Olimpíadas. Ele sendo o cara que vinha da preparação física mas com a cabeça já voltada muito pra parte técnica e tática. E quando eu voltei surgiu essa possibilidade (Coutinho ser técnico do Flamengo), pois a gente tinha feito boa campanha nas Olimpíadas. Ele já tinha sido atleta do clube, era torcedor do clube. O dr. Ivan Drummond (dirigente do Fla) veio me perguntar o que eu achava. Eu falei: acho que é a pessoa que está pensando à frente, em relação aos treinadores que eu trabalhei. Acho que é a pessoa certa pra dar aquele salto de qualidade.

Ele trabalhava como técnico, como psicólogo, tirou do basquete a ultrapassagem, a história do ponto futuro. Usou uma terminologia que não era normal no futebol. “Que história é essa de overlaping?” E hoje a gente vê todo mundo fazendo overlaping (a passagem do lateral pra receber a bola por trás do marcador, próximo à linha de fundo). Isso em 1976! A contribuição dele foi a maior possível pra montagem daquele time.

FR – Como era o cotidiano com ele? Nas derrotas inesperadas, ou diante de uma situação que, como técnico, ele tinha que agir?

J – Aí ele usava a psicologia. Teve um dia que eu entrei no vestiário nervoso, tinha tido uma discussão qualquer no campo. Depois que eu esbravejei, o Coutinho ficou me olhando e perguntou: “Acabou?”. Aí ele falou: “Senta ali e me diz quantas vezes eu já gritei com vocês. Vai resolver se gritar? Então esfria a cabeça, vamos conversar e vamos ver”. Ele te desarmava assim! Porque era um cara extremamente inteligente, culto, com uma sabedoria.


PRECONCEITO AO CONTRÁRIO

FR – Como foi a história da sua dispensa do América?

J – Eu passei na peneira, e já estava há três meses no clube. Na hora de receber o pagamento, eu e mais dois colegas não recebemos. Aí perguntamos por que a gente não tinha direito de receber. “Ah, vocês moram em Copacabana, Ipanema, não precisam...”. Depois dessa, eles não me viram nunca mais.

FR – Era o preconceito por vocês morarem na Zona Sul.

J – Mesmo quando fui pro Flamengo tinha sempre uma piadinha porque eu morava em Copacabana. Até esse tipo de coisa te motiva. É, moro em Copacabana, estudei em escola particular. E não podia ser um deles? Porque eu não erro concordância, porque falo tudo no plural? Parece que você tem que ser um burro pra ser jogador de futebol. Pro dirigente, isso é ótimo. Quer dizer, era ótimo, porque hoje em dia o procurador tomou conta dessa situação. Foi tanto dinheiro que entrou no mundo do futebol que hoje todo jogador tem procurador e assessor de imprensa!


BEACH SOCCER: PODIA TER SIDO MELHOR

FR – Falando em dirigentes, você é praticamente um fundador do beach soccer. Saiu da liderança do esporte por não concordar com os rumos que foram tomados - pensar em negócio lucrativo sem investir na base.

J – Eu fui jogar beach soccer porque eu queria o desenvolvimento do esporte. A primeira vez que joguei foi em Miami, em 1993. Eu pensei: “Isso aqui é a cara do Rio de Janeiro”. E o futebol de 11, da praia, tinha praticamente acabado. E o formato do BS, feito por um ítalo-americano, foi criado para a TV, privilegiando a parte técnica. Poucas faltas, jogadas espetaculares...

Fiz a ponte entre o criador do BS e a Koch Tavares, que organizaria o esporte. Só que a Koch Tavares vislumbrou os grandes eventos apenas. Eu queria que o esporte crescesse – como cresceu – mas não só na parte comercial. Nunca vi um torneio, organizado por eles, do juvenil, de feminino. Pra eles só interessa Júnior Negão, Neném, Junior e cia. pra botar na TV Globo.

Eu sei que fui usado, mas fiz isso porque eu queria ajudar a garotada que eu conhecia desde que eram pequenos. O meu objetivo eu alcancei: todos eles estão encaminhados, viraram jogadores profissionais. Cansei de dizer pra eles: “isso aqui não é mais uma brincadeira, tomou uma dimensão muito grande, vocês têm que ser profissionais”. Eu tava ali mais por divertimento, viajei como nunca. Com o BS fui a Okinawa, Marseille, Montenegro.

FR – Você acha que esse tipo de pensamento, de não pensar na base e só vislumbrar os grandes eventos comerciais, também está no futebol atual?

J – É diferente, porque o futebol profissional é regido por outra legislação. A seleção no futebol aconteceu porque existiam os clubes. No beach soccer foi o contrário: primeiro foi a seleção, depois a seleção, e a seleção. O ideal seria fazer um campeonato carioca, um paulista... E isso jamais passou pela cabeça dos grandes organizadores.


FLA-FUTEBOL: O MELHOR CAMINHO, NEGLIGENCIADO

FR – Tangenciando um pouco esse assunto, é por aí a sua decepção quando você foi gerente de futebol do Flamengo, em 2004?

J – Não, ali envolve outros ingredientes. Lá a minha expectativa era a de fazer o que eu tinha pensado pra depois de parar, isto é, a profissionalização do departamento de futebol. Porque não dá pra discutir com um dirigente que chega no clube às 6 da tarde quando eu estou lá desde as 8 da manhã. Ele foi pra empresa dele, fez a empresa dele lucrar, e depois vem pro Flamengo sem ter responsabilidade nenhuma. Se ele contratar um jogador que não der certo, ele não vai tirar dinheiro do bolso pra ressarcir o clube.

Mas [como gerente de futebol] eu era o profissional responsável pela contratação, junto com o treinador. No documento ia a minha canetada, e esse dirigente não podia chegar pra mim e dizer alguma coisa. Primeiro, porque tecnicamente ele não entende muito. E esse é um dos problemas: eu tinha muita responsabilidade e pouca autoridade.

E a autonomia financeira? O futebol é responsável por 86% da receita do clube, e no departamento de futebol só fica 32%. Tem alguma coisa errada nisso.

Então, você vai juntando as coisas. E principalmente: a falta de pulso do Marcio Braga. Quando ele me chamou, eu senti uma firmeza incrível. Eu pensei: agora é a hora que o futebol, pelo menos no Flamengo, vai dar uma reviravolta. E continuo achando que é só esse o caminho. Mas aí o Marcio, num determinado momento, não sustentou o seu projeto. As razões ele nunca me disse.

E era um projeto maravilhoso. Tinha a idéia de um centro de treinamento, pra formar o jogador, conquistar títulos e satisfazer a torcida, que é a razão de ser de todo clube, pelo menos no Brasil. E ele abandonou todo esse discurso que fez comigo.

FR – Como era a sua equipe?

J – O Fla-futebol tinha quatro profissionais: eu, na parte técnica; José Maria Sobrinho na parte executiva; João Henrique Areias na de marketing e o Paulo César Pereira, advogado que ficava com a gente 24 horas.Todos os problemas que envolviam o futebol você resolvia dentro do futebol, no dia. Não esperava o dirigente chegar no dia seguinte...

FR – E chegou a funcionar por um tempo?

J – Bem demais. O Flamengo foi campeão carioca em 2004 sem recursos, com dois meses de salários atrasados. A gente chegou junto dos jogadores, os mais “cascudos”, experientes do elenco, e eu disse: não vou mentir pra vocês, porque vocês não gostam de mentira, como eu também não gostava. A situação é essa. E se o clube, principalmente o presidente, tivesse dado o suporte necessário para essa relação de confiança continuar...

FR – Mas teve algum episódio que você pensou: “acabou, é a gota d'água”?

J – A coisa foi gradativa. Mas a gota d'água foi quando o Artur Rocha, vice-presidente geral, aproveitou que o Marcio Braga estava em viagem, trouxe o Dimba e pagou R$ 1,330 milhão na mão dele, e o elenco todo com salários atrasados. Isso é uma falta de respeito com todo mundo que estava no futebol do Flamengo desde o início. Como na semana passada eu tinha dito que, se tivesse interferência eu ia sair, ele acreditou que com aquilo ali eu ia pedir pra ir embora. Eu disse: “Ah, é? Quero ver me mandar embora”. E o Artur Rocha sempre torceu contra.

FR – Por quê?

J – Porque o sistema profissional implantado ia tirar desses caras uma série de coisas que nunca ficaram tão claras pra todo mundo. Infelizmente essas figuras continuam dentro do futebol. E em 2004 era a hora de implantar esse sistema. Não precisava ser comigo, poderia ser qualquer outro profissional. O projeto Fla-futebol conseguiu [ganhar] títulos, arrecadar recursos, revelar jogadores, como Luiz Alberto, André Bahia, Ibson, Jean. E os procuradores desses jogadores levaram [o dinheiro da venda] e o clube não recebeu nada.


LEI PELÉ: PROCURADORES ACHAM CLUBES

FR – Essa é uma outra questão, a existência dos empresários (procuradores).

J – Os clubes são reféns dos empresários, porque a lei possibilita que eles usem o seu lado capitalista. Quem tem, manda, quem não tem não vai mandar. Vai ser obrigado a vender ou então se prostituir. A Lei Pelé praticamente fez dos clubes reféns dos empresários.

FR – Por causa do passe aos 25 anos?

J – É, você não deu ao clube a possibilidade de usufruir do seu atleta, pelo menos no mínimo de tempo possível para que possa te ressarcir de tudo o que você investiu. O André Bahia, o Júlio César tinham uns dez anos de Flamengo. Foram embora e quem ganhou? Seguramente, os procuradores. E ganharam a maior fatia. A própria Lei Pelé não tutela os clubes.

FR – Ou seja, a Lei Pelé podia até ter uma certa intenção, mas no fundo prejudicou.

J – É que a gente costuma copiar todo mundo. Apareceu a Lei Bosman. Deveriam ter estudado a lei a fundo para aplicar isso no Brasil. Porque no Brasil os clubes vivem de vender jogadores, até hoje. Se o São Paulo, o clube mais bem administrado do Brasil, não vender uns dois jogadores por ano, cai.

Dia desses o presidente Horcades, do Fluminense, falou: “O presidente de clube que disser que não precisa vender jogador, estará mentindo”. Fora isso, a única forma que você tem de trazer dinheiro para o clube é por meio de vitórias e conquistas. Se você for à final, tem uma cota a receber, tem o prêmio do patrocinador, prêmio do fornecedor.

Na segunda parte da entrevista, Junior fala da experiência como técnico, Copa de 82 e a vida de comentarista.

6 comentários:

UMP-Rio disse...

AMEI!!! Ele é o cara, né? Que legal a sua oportunidade, só os craques fazem isso! Quero ler o resto, decupa essa fita logo, rsrssr! Bjs, Lívia

adriano disse...

muito boa a primeira parte, marcos. no aguardo da segunda. abraço!

joaopmb disse...

Muito boa! Otima entrvista e leitura!

Sibele disse...

Vc é o cara. E o Junior também...
BINGO!

Anônimo disse...

MUITO BOM, ESTAVA CURIOSA PRA VER COMO TINHA FICADO A REPORTAGEM.
ESPERO QUE SEJA A PRIMEIRA DE MUITAS ( NÃO ESQUEÇA O LEANDRO, HEIM?)

Nadia disse...

O sujeito faz gol( e muitos!) até fora de campo! Craque em todos os aspectos!!

Excelente reportagem, excelentes comentários e, sobretudo, muito esclarecedores!

Parabéns!!!