sábado, 13 de dezembro de 2008

Colorado pelo futebol

Das muitas entrevistas que o escritor Luis Fernando Verissimo já deu, em poucas ele fala tanto sobre futebol como agora. A paixão pelo Internacional (que vem desde criança até sua primeira experiência como avô), sua passionalidade com a Seleção e a difícil tarefa de falar sobre o arqui-rival Grêmio estão presentes nesse bate-papo de quem - e pra quem - gosta de futebol.

(charge: Baptistão)

FUTEBOL RACIONAL - Você tem tanto prazer em acompanhar futebol hoje como na época de Zico e Pelé? Na sua opinião, quais as principais diferenças daquela época para hoje, no futebol globalizado?

VERISSIMO - Eu era torcedor de arquibancada, hoje sou torcedor de televisão, e isso muda muita coisa. Da arquibancada do Maracanã vi o auge da época Pelé, mas na época Zico eu já não estava mais no Rio. Só tenho visto futebol ao vivo nas Copas. O jogo mudou, claro, mas não no essencial: continua sendo o esporte mais plasticamente bonito que existe, e isto se deve aos zicos e aos pelés, que continuam aparecendo. Ou pelo menos similares razoáveis.

FR - O que muda, na sua percepção do jogo, quando você deixa de ser um torcedor de arquibancada pra ser um torcedor de TV?

V - Em primeiro lugar, o óbvio: na televisão você vê muito mais o jogo do que estando lá, né? Nos estádios você sente mais o ambiente do jogo, mas em casa você vê o detalhe da câmera. Além de ser uma maneira mais cômoda de se ver futebol, também é uma maneira de se ver melhor um jogo. Não estou defendendo que as pessoas fiquem em casa vendo TV, sem ir ao estádio e participar da festa. Mas acho que a gente vê melhor na TV. Acho até que quando a gente vai ao estádio fica esperando a repetição do lance...

FR - Há pouco tempo houve uma polêmica com um juiz gaúcho, num jogo contra o Flamengo, de um pênalti que ele teria errado ao não dar. E só foi esclarecido que ele acertou quando foi mostrado um ângulo de uma câmera específica, por trás do lance. Como você vê essa relação da tecnologia com o futebol? Há quem diga que a FIFA é muito conservadora ao não aceitar isso. Até que ponto você acha que a tecnologia pode alterar o futebol?

V - É, lá nos Estados Unidos, nos jogos de futebol americano, usa-se muito a tecnologia. Eles param o jogo, um dos juízes vê o lance repetido, que pode mudar ou manter a decisão dele. Mas é claro que o futebol americano, entre outras coisas, é um esporte que tem muita bola parada, não é uma ação contínua como é o nosso futebol. Eu acho que só atrapalharia o jogo, então nesse caso eu sou conservador: não acho que o juiz deva assistir à repetição do lance. E o erro do juiz faz parte do futebol, faz parte do espetáculo.

FR - Qual jogador te leva a assistir a um jogo hoje? E por quê? Não vale dizer qualquer jogador do Internacional...

V - É sempre um prazer assistir na TV a um jogo do Manchester United ou qualquer outro da liga inglesa. Gosto muito daquele Seedorf, do Milan.

FR - O que te levou a gostar de futebol? E o que te levou a torcer pelo Inter, e não pelo Grêmio?

V - Gosto de futebol desde garoto, quando acompanhava pelo rádio. Na época o Inter era o super-campeão e o Grêmio tinha aquela coisa elitista de não aceitar jogador negro, etc. Hoje não tem mais isso. Como eu acabara de voltar dos Estados Unidos, onde tinha passado a Segunda Guerra Mundial e ajudado a derrotar os inimigos da democracia em batalhas imaginárias, não iria chegar em Porto Alegre e torcer pelo time dos alemães.

FR - E quando criança qual era o seu ídolo no futebol?

V - Tesourinha, ponta-direita do Internacional. Naquele tempo existia ponta-direita... Era um ótimo jogador, chegou a jogar na Seleção Brasileira. Depois foi pro Vasco e, na volta ao Rio Grande do Sul, jogou no Grêmio. Foi o primeiro negro a jogar lá.

FR - E mesmo ele tendo ido pro Grêmio você continuou gostando dele...
V - Sim, sim... Diz a lenda que ele nunca fez um gol no Internacional enquanto jogava no Grêmio.

FR - Qual o seu jogo inesquecível? E gol inesquecível?

V - O jogo Brasil e França na Copa de 86, que nós perdemos nos pênaltis. O gol do Figueroa no Cruzeiro, quando o Inter foi campeão brasileiro pela primeira vez (em 1975).

FR - O que você sentiu quando sua neta nasceu no dia do aniversário do Inter?

V - Pois é. Nasceu predestinada.

FR - Defina o Inter.

V - Melhor do mundo.

FR - Defina o Grêmio.

V - Bem. Sim. Não. Quer dizer...

FR - Teve um gostinho especial ser campeão do mundo em cima do Ronaldinho Gaúcho, ex-gremista? Por quê? Aliás, o que você acha de Ronaldinho Gaúcho?

V - Foi bom, foi bom. O Ronaldinho Gaucho foi um dos que naufragaram na Copa da Alemanha e só agora está, aos poucos, conseguindo chegar na praia.

FR - E agora, que o Inter ganhou todos os títulos possíveis? Como está a expectativa do torcedor?

V - É, eu até escrevi uma crônica que agora só nos resta ganharmos o campeonato do sistema solar, já que aqui na Terra ganhou tudo...

FR - O Internacional como clube, como instituição, tem alguma relação contigo, já te procuraram para alguma coisa promocional? Você escreveu um livro sobre a história dele...

V - Bom, o livro não foi iniciativa do clube, mas para o ano que vem, que é o centenário, já me convidaram para escrever. Vão editar um livro grande, com fotos antigas e novas, e me chamaram pra fazer o texto.

FR - Você, como gaúcho, gostou da escolha do ex-colorado Dunga para técnico da seleção? O que tem achado do trabalho dele?

V - Sou um dunguista de longa data. Acho que ele está indo mais ou menos, mais mais do que menos, tem errado e acertado. O grande problema é essa relação dos jogadores que jogam no exterior com a Seleção. Eles são estrelas milionárias e a torcida espera que eles se empenhem como um estreante que precisa provar seu valor. E isso atrapalha bastante a Seleção. Você vê o que jogadores como Kaká e Robinho fazem lá fora e a torcida espera que eles façam sempre isso. E eles estão muito preocupados com as próprias canelas, com a carreira, não se entregam ao jogo com o patriotismo que a torcida espera deles.

FR - Mas há quem diga que os jogadores que se empenham em campo o fazem para garantir lugar na vitrine que é a Seleção Brasileira. Você acha que o que a torcida espera deles é patriotismo, mesmo?

V - Acho que sim, porque a relação da torcida com a Seleção é passional, e a do jogador profissional não necessariamente é.

FR - O Inter hoje tem o Guiñazu, o Grêmio já teve o Dinho. Por que os times gaúchos sempre possuem um jogador especialista em ser violento que recebe grande admiração da torcida? E por que a torcida gosta?

V - Essa seria uma característica gaúcha mas os dois exemplos que você citou não são gaúchos. A torcida gosta porque o futebol se decide nas batalhas do meio-campo e ali tem que ser guerreiro. O futebol carioca tem andado por baixo, com algumas exceções, nestes anos todos porque não aceita isto muito bem.

FR - Mas você não acha que há uma confusão entre o jogador “guerreiro” e o jogador violento?

V -É, também é um pouco difícil de definir quando é que termina o jogo duro e começa a violência. Há aqueles jogadores que dizem “sou viril, mas não sou desleal”. Eu acho que ali no meio-campo o importante é ter a posse da bola, tirá-la do adversário, precisa ter um jogador preocupado com isso. Que, entre ser um jogador violento e tirar a bola do adversário, ele prefira tirar a bola do adversário.

FR - Qual a tua opinião sobre a realização da Copa 2014 no Brasil?

V - Acho que quem é apaixonado por futebol, como eu, tem que julgar mais pelo lado da paixão do que da razão, a gente quer ver uma Copa do Mundo aqui. Se formos pelo lado da razão, a última coisa que queremos é uma Copa do Mundo aqui, com todos os problemas que o país tem. Mas falando como torcedor, eu sou a favor, que venha a Copa.

FR - O que você indica na literatura futebolística?

V - Tudo do Mário Filho. E o livro do José Miguel Wisnik, "Remédio veneno". Ou é "Veneno remédio”? Enfim, é excelente.

Veja também Verissimo falando sobre cultura geral

2 comentários:

Lívia disse...

Amei, amei!!! Sabe que eu tô tentando falar com ele também? Tomara que dê certo e ele resolva aparecer de vez na blogosfera! Bjs

Brasileirão disse...

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