sábado, 24 de dezembro de 2011

Um jogo, uma reflexão coletiva

Santos x Barcelona expôs ao mundo muita coisa, mas principalmente ao Brasil. Suas repercussões comprovam algumas coisas: primeiro, como a TV aberta ainda é fortíssima no Brasil e como ela é crucial para acontecer um debate público. Segundo, como nossa imprensa esportiva é alienada e, por vezes, é pega no flagra. Terceiro, como Neymar é o bode expiatório da vez, para o bem e para o mal.


Ricardo Teixeira, no seu mítico perfil feito pela revista piauí, disse com todas as letras que só começaria a se preocupar com as denúncias contra ele se elas chegassem ao Jornal Nacional. A despeito do desconhecimento do cartola sobre a força multiplicadora da internet, a afirmação é emblemática.

Isso porque só quando a TV aberta exibe/transmite/cobra/acompanha determinado fato é que as águas parecem rolar. Será que estaríamos discutindo tanto sobre os caminhos do nosso futebol se a chinelada pública do Barcelona não tivesse passado na Globo para todo o Brasil?

O fim da temporada brasileira ajudou a totalizar a audiência - e também a  repercussão, já que não há mais disputas a serem cobertas pela imprensa diariamente. Mas quem acompanha os campeonatos europeus nos canais fechados já sabia do que o Barça era capaz. No meio do ano o Real Madrid, com todas as suas estrelas, apanhou de 5 x 0 sob o mesmo roteiro que os santistas experimentaram. Fora outros jogos da temporada, contra times igualmente fortes.

Mas no domingão estava lá a Globo transmitindo a todo país, e só assim para não ser mais um jogo como os demais. Todo mundo está até agora comentando o resultado, as causas, as consequências, se o nosso futebol se perdeu pelo caminho do pragmatismo, se a Espanha inventa algo novo etc. Um debate necessário e necessariamente público, só ocorrido após a exposição da TV aberta.

O que me leva ao segundo ponto: é de se imaginar que os jornalistas esportivos das grandes redes acompanhem o futebol que se joga nos quatro cantos do mundo. Ou ao menos na Europa. Mas a surpresa indisfarçada dos profissionais da imprensa com o jogo e o estilo do Barcelona foi constrangedora.

Quem acompanha o Barcelona e o Santos pós-Muricy tinha todos os motivos para considerar a hipótese de um massacre. Como é futebol, era justo deixar no ar a possibilidade do Santos vencer. Mas não dava pra dizer que seria um confronto equilibrado. Uma defesa com Edu Dracena, Durval e Léo em fim de carreira não seria páreo para um Messi, quanto mais para um Barcelona com Messi.

Mas nada disso surgiu antes do jogo. Até porque essa mesma imprensa esportiva, por mais que não seja a única culpada, tem a sua responsabilidade na construção do modo com que vemos o futebol. Quando um técnico como Muricy, que venceu 3 campeonatos brasileiros com retranca, bola parada e contra-ataque, não recebe nenhuma crítica contundente - pelo contrário, é automaticamente louvado simplesmente pelo fato de ter sido campeão - está-se legitimando um modo de pensar o esporte.

E como os jornalistas que incensaram um técnico "top" o ano inteiro poderiam dizer que sua mentalidade, que assassinou o futebol ofensivo (e campeão) do Santos 2010, não seria páreo para o Barça de Guardiola? Assim, levaram em banho-maria o pré-jogo. Mas o time catalão deixou nua toda a imprensa esportiva. O Barcelona jogou um futebol antítese de Muricy e, ironicamente mordaz, com um RESULTADO acachapante e inquestionável.

Assim chegamos a Neymar. Esse garoto de 19 anos que carrega nas costas o peso de ser o único craque de sua geração, e logo tão cedo. O camisa 11 do Santos serve como a cortina de fumaça perfeita, pra qualquer oportunista.

Neymar se diverte em campo, pinta o cabelo, ouve as músicas da moda, pega garotas - mas nada disso é obstáculo para seu profissionalismo. Ele fez questão de jogar todos os jogos dos Santos, e são vários os que ele decidiu - até na final da Libertadores, mesmo sem Robinho, André, Wesley e Ganso.

Neymar é o pretexto ideal para os que estão destruindo o nosso futebol. Não temos um camisa 10 há tempos, ao contrário de cabeças-de-área. Mas nada de pessimismo, afinal, mesmo assim surgiu um Neymar!

Se o Santos apanhar de 4 do melhor time do mundo, Neymar automaticamente vira o mascarado-pipoqueiro. A torcida, preguiçosa e míope como sempre, não vai se debruçar sobre as razões de um time de 11, comandado por um técnico arrogante (são tantos...) também serem responsáveis.

E olha que Neymar, com toda essa pressão, ainda deu a declaração mais verdadeira sobre o momento do nosso futebol: "Hoje aprendemos a jogar bola". É isso mesmo, amigos: quem um dia ensinou também precisa voltar ao banco da escola pra se atualizar - ou pra adaptar seus princípios esquecidos aos novos tempos.

Pra isso é preciso humildade, vontade política para administrar humanamente, e não de forma mercantil, as categorias de base. É preciso fazer o dever de casa de sua profissão e acompanhar o que se faz no futebol, denunciar o que há de errado. É preciso não se achar deus.

Gostaria de indicar leituras indispensáveis, que têm contribuído para o debate a partir de Santos x Barcelona:

- Complexo de dálmata, por Francisco Bosco

- Futebol totalitário?, por José Miguel Wisnik

- A lição do Barcelona a Muricy, por André Monnerat

- Como parar o Barcelona?, por Rica Perrone

- O dia em que Guardiola apontou para o nosso "elo perdido", por Lucio de Castro

Um comentário:

gustavosirelli disse...

Meu amigo, mais um belo texto. E excelentes dicas de leitura. Ainda pretendo entrar ao assunto, talvez abordando cada uma das muitas partes dessa história em separado. Mas não tenho tido tempo, o cafofo está parado há semanas.

Para a lista de leitura, seguem dois links. O primeiro, uma entrevista de Xavi. Em espanhol que dá pra entender fácil: http://www.elpais.com/articulo/deportes/he/estado/dias/tocar/pelota/elpepidep/20111218elpepidep_9/Tes

O outro, um artigo interessante sobre partes e todo: http://www.universidadedofutebol.com.br/2011/12/3,11670,O+TODO+E+MAIS+DO+QUE+A+SOMA+DAS+PARTES+OU+O+JOGO+BARCELONA-SANTOS.aspx