quinta-feira, 15 de maio de 2008

São-paulinos sorriem

Paulo Vinicius Coelho e suas estatísticas comprovaram que o desempenho do São Paulo em Libertadores é semelhante ao do Boca Juniors.

Digo mais: a história recente do tricolor paulista está mostrando que é o primeiro clube desde o Flamengo de 81 a construir uma sólida hegemonia.

Poderia colocar o Palmeiras de 1993-94, mas eles não ganharam Libertadores. Ou o Vasco de 1997-98, mas não ganharam o Mundial Interclubes. O São Paulo, em duas gerações num curto espaço de tempo (1991-2007) conseguiu três Brasileiros, três Libertadores, três Mundiais. Fora os Campeonatos Paulistas.

Sem um futebol vistoso mas também sem "pipocar", o São Paulo faz mais um bom resultado na competição sul-americana. Adriano, mais uma vez, fez um gol decisivo. Fernando Henrique é bom goleiro, mas falha em jogos cruciais. O Fluminense baseava-se nisso quando buscava um outro nome pra posição.

O São Paulo pode não ser campeão (pode até não passar das quartas), mas não duvido que faça a final com o Boca Juniors.

Na Copa do Brasil, o Botafogo joga com a aplicação necessária: empata fora de casa, vence no Engenhão. O Corinthians se supera: vence na casa do São Caetano e garante a vaga nas semifinais. Promessa de um jogão, tanto no Rio como em São Paulo.

Sport 3 x 1 Internacional. O Colorado gaúcho, favorito para o Brasileirão, está eliminado da Copa do Brasil. Sei não, mas o Leão do Recife parece ter ganhado injeção de maiores ambições para 2008 (já foi tri estadual). A conferir.

Só que o Sport pega o Vasco, que não deu margem pro azar e eliminou o atrevido Corinthians alagoano. Mais um rubro-negro no caminho do time da Colina... Edmundo e Leandro Amaral têm contagiado o time e equilibrando talento, liderança e experiência. Excelentes semifinais.

NOTA FÚNEBRE: o Zenit é campeão da Copa da Uefa.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O pecado mortal da omissão

O técnico do Zenit (time russo finalista da Copa da Uefa) fez a seguinte declaração:

- Não quero negros no meu time porque meus torcedores não querem.

Pra quem não se lembra, o Zenit foi o clube cujos torcedores protagonizaram inacreditáveis atos de racismo, sendo ameaçado de punição pela FIFA.

Aí é que está o problema: a FIFA ameaça, ameaça... e nada. Se a entidade máxima do futebol acha que não deve se meter, o apartheid no futebol está a um passo de ser naturalizado.

Só nos resta torcer para o Zenit levar uma surra de um time inglês ou francês, que contratam muitos jogadores do futebol africano - isso na esfera esportiva. Na esfera criminal, a indiferença acaba tendo o mesmo valor do irracional e injustificável ato de ódio que mancha o futebol.

Veja também: Alguma coisa está fora da ordem

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Reservas? Com reservas

O Campeonato Brasileiro de 2008 começa, como sempre, simultâneo à Libertadores e à Copa do Brasil. Os times envolvidos em duas dessas competições fazem a escolha de Sofia: escalar ou não times mistos/reservas para a primeira rodada do Brasileirão?

O risco não é tão pequeno como se pensa. Pergunte a quem ficou fora de uma Libertadores ou perdeu o título por três pontos apenas. Ou até menos.

Mesmo assim, vários times foram nessa empreitada. São Paulo e Santos se deram mal (ao menos o Peixe perdeu fora de casa) e Botafogo e Fluminense conseguiram resultados melhores (o tricolor empatou fora de casa).

Em compensação, os times completos de Portuguesa e Figueirense fizeram o jogo mais espetacular do dia: 5 x 5, sendo que a Lusa estava vencendo por 5 x 2. O Figueira tem a fama de não desistir de nenhum placar, e a comprovou mais uma vez.

A grande expectativa estava sobre o Flamengo de Caio Júnior: como se comportariam após a tragédia de quarta? O certo é que não deram chance para os púberes reservas do Santos: 3 x 1. Até Ibson voltou a fazer gol! E Juan prima pela regularidade.

Antes do jogo o vice de futebol, Kleber Leite, disse que "o assunto Libertadores está sepultado na Gávea". Excelente atitude. Por que não enterraram o título carioca na segunda-feira passada também? E diziam que o clube tinha aprendido com os erros da campanha de 2007...

São Paulo x Fluminense: aposto num jogão, e não duvido que um dos dois times seja finalista da competição sul-americana.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Sob a batuta de quem sabe - parte 2

Acompanhe a segunda parte da entrevista com Junior, eterno Maestro do Flamengo:

“GRAÇAS A DEUS JOGUEI 82!”

FR – Você tinha tudo pra jogar a Copa de 94 e o Parreira falou que não havia seleção no mundo com jogadores por volta dos 40 anos. Hoje há o Maldini (zagueiro da Itália) com 39 anos, o Nedved (meio-campo da Rep. Tcheca) com 36. Como foi pra você ouvir aquilo, sabendo que você tinha qualidade?

J – Eu parei de jogar, aquilo acelerou a minha despedida. Porque eu tinha como objetivo pelo menos chegar à Copa de 94, quando eu teria 40 anos. Tinha vindo de uma temporada excepcional, ainda estava bem. Mas aquilo ali jogou uma água fria. A gente é movido a objetivos, e quando chega nessa idade, principalmente.

O Romário, por exemplo. Quando chegou nos 1.000 gols com certeza ficou na cabeça dele: qual o meu objetivo agora? Aí você começa a buscar. Se você não encontra um objetivo forte, você vai fazer outra coisa: cuidar da mulher, dos filhos, curtir a família. E acho que tanto o Parreira como o Lazaroni em 90 poderiam ter me levado. E eu teria ajudado muito.

FR - Parreira também desdenhou da seleção de 82, dizendo em entrevista de 2006 que a História não fala de seleções que deram show. A Holanda de 74 e a Hungria de 54 entraram no mesmo barco... Como é pra você ouvir isso sobre a sua geração, ainda mais vindo de um dos principais técnicos brasileiros?

J – Eles falam em cima do resultado, não em cima da história do futebol. O resultado diz que o Brasil foi campeão em 1994. Mas a história fala que quem jogava o futebol que o torcedor gostava era o de 1982, 70, 58. Quando citam a seleção de 94 falam principalmente de Romário e Bebeto. E do Dunga, mas por causa da revanche de 90.

FR – E do Taffarel pelos pênaltis...

J – Então o Parreira pode dizer o que ele quiser. Você aceitar, aí é uma outra história. Graças a Deus joguei 82! As pessoas falam de tristeza... Que tristeza? Fiz uma música que até hoje todo mundo em roda de samba pede que eu cante (“Voa, canarinho, voa”, LP com mais de 800 mil cópias vendidas que foi a trilha sonora da seleção na Copa), joguei ao lado de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Oscar, Luizinho, Éder... Só monstros sagrados. Trabalhei com o maior treinador da história do futebol brasileiro (Telê Santana). Depois de 82, joguei mais três anos na Itália, voltei, fui campeão.

Não dá pra ficar preso à história de um jogo. Pobres daqueles que ficaram presos ao Brasil x Uruguai de 50.

A Copa da Itália foi um resultado que faz parte da profissão. Gostaria de ter ganho? Gostaria. Chorei? Chorei muito, junto com todo mundo. Era uma oportunidade que a gente tinha pra fazer até a evolução do futebol, porque todo mundo copia quem ganhou. Todo mundo queria copiar a Holanda de 74, e o que aconteceu? Nós tivemos uma Copa de 78 maravilhosa, com todo mundo jogando no ataque. Até a Itália! Nós perdemos em 82 e houve uma involução no futebol, com todo mundo jogando no contra-ataque etc.

FR – Você se sente realizado mesmo não tendo ganhado a Copa de 82.

J – Caramba, quem vai me tirar ter sido campeão do mundo em 81 [pelo Flamengo]? Hein? As pessoas não têm noção do que é isso...

FR – E o que você achou do futebol da seleção de 94?

J – Em 94, com as características daquele elenco, você só podia jogar daquele jeito. O pessoal fala do Flamengo de 81. Nós jogávamos no 4-5-1: o único atacante de nosso time era o Nunes, todo mundo vinha de trás e todo mundo fazia gol. Por quê? Porque as características daquele time permitiam fazer isso. Em 94, não. Eu participei da comissão técnica, fui observador da seleção, e falei isso na época. Se o Brasil joga de outra forma, atacando, não chegava.

“TODOS ESTÃO TÉCNICOS”

FR - Você teve uma curta experiência como técnico (Flamengo e Corinthians). Na época disse uma frase: “eu não sou técnico, estou técnico”.

J – Eu acho que todo mundo “está técnico”. Na conjuntura atual, você está na quarta e no domingo, você já era. Eu nunca pensei em ser treinador.

FR – E como é que surgiu essa oportunidade?

J – O Paulo Angioni me convenceu que eu tinha que assumir o clube naquela hora, que precisavam de mim. E tudo o que se relaciona ao Flamengo eu não posso dizer que não, tenho que pensar. Aí me ligou o Cantarele (ex-goleiro do Fla, campeão mundial em 81), e outros, dizendo “vamos lá, a gente vai te ajudar”, e fomos. Mas não é que eu me preparei pra ser treinador. Poderia até ter continuado a carreira.

FR - E o que te levou a parar?

J – Uma série de coisas... Eu quero mais é curtir a vida, essa experiência não mudaria nada pra mim. O que eu quero mais? Eu me realizei como profissional, consegui quase tudo que um atleta gostaria de alcançar. Financeiramente tenho uma vida tranqüila, não tenho a necessidade de ficar pulando de galho em galho [como técnico]. Quero ir à praia, estar com meus filhos, tocar um pagode na esquina com meus amigos... Passei 23 anos ali [no futebol], me dedicando, e aí fui pro lado de curtir a vida. Me chamaram pra ser treinador da seleção olímpica da China no ano passado. “Não, obrigado, meu camarada, não quero sair do país, toma umas indicações de nomes...”.

À VONTADE NA TV

FR - E hoje, você “está” ou “é” comentarista?

J – Eu já tenho mais de dez anos comentando. Comecei quando ainda jogava no Torino, comentando alguns jogos na RAI: Copa da Uefa, Liga dos Campeões... Aí comecei a gostar disso. Aqui comecei em 1995, quando a Globo me chamou, fiz as finais do Brasileiro, Supercopa. Vi que era bom pra caramba.

FR – Por que você gosta tanto de ser comentarista?

J – Porque eu acho que posso transmitir a minha experiência para as pessoas leigas. Muitas vezes as informações que chegam para o torcedor não chegam da forma que deveria chegar. Eu gosto de passar o que estou vendo no campo pro cara em casa, e o cara entender. Isso é a satisfação. É a mesma história do treinador: por que o Cuca deu 3 socos no ar na semifinal contra o Flamengo? Porque aconteceu uma jogada que ele treinou, essa é a realização dele, já que ele não entra mais em campo. (Na foto ao lado, Junior recebe o prêmio de melhor comentarista de TV do Campeonato Carioca 2008, dado pela Federação de Futebol do Rio)

FR – E dá pra falar tudo o que pensa?

J – Eu não tenho restrições. Até hoje ninguém chegou e disse: “você não pode falar isso”. Você tem que saber o seu limite, até onde você vai. Eu não posso extrapolar quando falar do Flamengo ou do Vasco, nem pra bem nem pra mal, sabendo quem eu sou e quem eu fui. Você está ali pra comentar, não pra narrar nem pra convencer ninguém. Você tem que ter opinião, não adianta ficar em cima do muro.

Leia também a primeira parte da entrevista

O resto da rodada

Após uma ressaca inesperada, retomo o fôlego pra comentar os demais jogos da rodada de quarta.

A torcida vascaína só tem o que comemorar. Leandro Amaral, dessa vez, demonstrou profissionalismo (tinha outra escolha?) e mostrou que será muito útil ao time. "Tio" Edmundo agradece, ganhou um garçom e tanto. E que também faz gols.

Depois do fiasco rubro-negro, nenhum cruzmaltino se atreve a dizer que a vaga na próxima fase da Copa do Brasil já está garantida...

Sem brilho nenhum, mas garantindo o máximo de pontos possíveis, o São Paulo segue na Libertadores. 1 x 0 talvez seja o placar mais comum nos jogos do tricolor. Mas o sufoco tem compensado, e quem já é tricampeão do torneio nunca pode ser descartado.

O Fluminense, que terça-feira passou pelo Nacional no estilo do São Paulo, completa o primeiro duelo brasileiro na Libertadores. Tem mais talento que o time paulista, mas precisa traduzir em efetividade e vontade de buscar um título inédito.

O Cruzeiro juntou-se ao "paredão" que o Boca Juniors mantém há séculos. Mais uma vítima do implacável campeão da Libertadores em 2007. Os argentinos jogam como se estivessem sempre em casa, e sempre com raça e disposição, como se estivessem perdendo. Pra mim, será bicampeão.

E sábado começa o Brasileirão!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Vexaminoso

Não há outra palavra pra descrever o que foi a partida e o resultado de ontem no Maracanã. O Flamengo jogou como não se deve jogar uma Libertadores: com displicência e achando que seria fácil. Todos os jogos da competição são difíceis e com clima de final.

Caio Júnior que se cuide: sem Fábio Luciano, a defesa rubro-negra fica totalmente desorientada. Por isso tomou sufoco e o segundo gol, o mais importante do jogo (deixou o Flamengo e a torcida nervosos e em dúvida). Só Juan parecia sóbrio.

Souza, que quase não protagoniza os jogos devido a sua função tática de pivô, não escolheu pior momento para aparecer e jogar terrivelmente. Marcinho estava mal, Leo Moura estava mal, Obina e Tardelli não resolveram e Renato Augusto entrou tarde demais.

Não era a noite do Fla. Tanto o primeiro como o terceiro gols mostraram que a sorte não estava do lado do campeão carioca. O que não é desculpa: quem fez quatro gols fora de casa não conseguiu fazer um sequer - o que seria suficiente - diante da torcida?

Agora, resta chegar entre os 4 primeiros do difícil Campeonato Brasileiro para tentar, novamente, a Libertadores. O Flamengo jogou fora todo o planejamento focado na competição sul-americana.

Espera-se dos dirigentes cabeça fria e de Caio Júnior muita psicologia para o elenco perceber que ainda há um ano inteiro pela frente para apagar essa mancha histórica. Precisa pensar no título nacional, nada aquém disso. Apesar de ontem, tem time pra tentar a conquista.

Quando o Cruzeiro pensava que seria o papelão da noite, o Flamengo tratou de ser campeão nisso também. Afinal, o Boca Juniors é o atual campeão da Libertadores, e não o último colocado do campeonato mexicano.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Sob a batuta de quem sabe

A primeira grande entrevista do Futebol Racional foi com um grande craque brasileiro: Junior, o eterno “Maestro” do Flamengo. Campeão carioca, brasileiro, da Libertadores e Mundial pelo rubro-negro. Considerado um dos melhores laterais da história do futebol.

Na casa de sua mãe, em Copacabana, ele falou sobre as diferenças do futebol de ontem e de hoje, preconceitos, decepção com dirigentes. E dá graças a Deus por ter jogado a Copa de 82.

Hoje publicamos a primeira parte da entrevista. Aproveite a condução verbal do Maestro:

FUTEBOL RACIONAL - Você jogou nas duas laterais e depois foi pro meio-campo. Quais as principais diferenças entre os jogadores dessas posições da sua época para os de hoje?

JUNIOR – Hoje não tem mais lateral, né? Você tem alas. E acabaram os pontas. A gente ficava na véspera do jogo pensando: “Caramba, amanhã vou ter pela frente Wilsinho, Robertinho, Nilton Batata, Valdomiro, Narciso...”. E hoje? Lateral vai marcar lateral? Jogar de lateral hoje é uma “teta”. Quem dera. Antes era difícil: ponta-direita e ponta-esquerda dos bons, rápidos, velozes.

A própria carência do Brasil [hoje] faz muitos laterais passarem a ser meias. Cada time tinha um camisa 10 de tirar o chapéu, um meia-direita excepcional, dois laterais bons. A carência hoje faz com que você improvise e “queime etapas” pra certos jogadores.

É o caso do Ibson (meio-campo do Flamengo): ele é um cabeça-de-área que se tornou um bom meia. Mas se ele tivesse se fixado na posição original teria sido um excelente cabeça-de-área, porque além de marcar bem, passava bem e chegava bem na frente.

FR – Falando da relação entre jogador e clube, a sua geração teve algo diferente nesse sentido.

J – Não existem termos de comparação. Primeiro, que se jogava por outros valores, não necessariamente financeiros. As pessoas sabiam o quanto o clube era importante, o quanto representávamos para o clube, o quanto poderíamos representar ainda. A quantidade de propostas que foram negadas foi grande, porque nos sentíamos bem ali. Você cria uma relação de identificação. Será que nós nos comportaríamos dessa forma hoje? Não sei.

O Flamengo era o clube que melhor pagava, ninguém queria sair e todo mundo queria ir pra lá. Em 81 o Real Madri fez uma proposta pra mim, e eu disse: “não, obrigado”.

FR – Com esse clima não havia “noitadas”, indisciplinas?

J – Havia, mas quem andasse fora da linha e não se “enquadrava” na estrutura daquele Flamengo não era aceito pelo grupo. Alguns a gente teve que recuperar, era uma coisa que fazia parte da obrigação do grupo. A gente sabia que um jogador tinha família no Brasil e falava pra ele: “não vai gastar o dinheiro todo na excursão, segura a onda, lembra da tua família”. Isso era uma preocupação de todos.

FR – E esse clima de família, de grupo compromissado uns com os outros, ainda é possível hoje?

J – O Botafogo do Cuca é a maior demonstração isso. É um grupo cúmplice, comprometido com os objetivos traçados. Uma ovelha pode desgarrar. Se três ovelhas desgarrarem, você não chega. O Cuca é o responsável, pois ele deve ter vivido isso em outras situações.


CAPITÃO COUTINHO

FR - Qual a contribuição do técnico Cláudio Coutinho naquela geração do Flamengo?

J - Tive a primeira experiência com o “Capitão” em 1976, nas Olimpíadas. Ele sendo o cara que vinha da preparação física mas com a cabeça já voltada muito pra parte técnica e tática. E quando eu voltei surgiu essa possibilidade (Coutinho ser técnico do Flamengo), pois a gente tinha feito boa campanha nas Olimpíadas. Ele já tinha sido atleta do clube, era torcedor do clube. O dr. Ivan Drummond (dirigente do Fla) veio me perguntar o que eu achava. Eu falei: acho que é a pessoa que está pensando à frente, em relação aos treinadores que eu trabalhei. Acho que é a pessoa certa pra dar aquele salto de qualidade.

Ele trabalhava como técnico, como psicólogo, tirou do basquete a ultrapassagem, a história do ponto futuro. Usou uma terminologia que não era normal no futebol. “Que história é essa de overlaping?” E hoje a gente vê todo mundo fazendo overlaping (a passagem do lateral pra receber a bola por trás do marcador, próximo à linha de fundo). Isso em 1976! A contribuição dele foi a maior possível pra montagem daquele time.

FR – Como era o cotidiano com ele? Nas derrotas inesperadas, ou diante de uma situação que, como técnico, ele tinha que agir?

J – Aí ele usava a psicologia. Teve um dia que eu entrei no vestiário nervoso, tinha tido uma discussão qualquer no campo. Depois que eu esbravejei, o Coutinho ficou me olhando e perguntou: “Acabou?”. Aí ele falou: “Senta ali e me diz quantas vezes eu já gritei com vocês. Vai resolver se gritar? Então esfria a cabeça, vamos conversar e vamos ver”. Ele te desarmava assim! Porque era um cara extremamente inteligente, culto, com uma sabedoria.


PRECONCEITO AO CONTRÁRIO

FR – Como foi a história da sua dispensa do América?

J – Eu passei na peneira, e já estava há três meses no clube. Na hora de receber o pagamento, eu e mais dois colegas não recebemos. Aí perguntamos por que a gente não tinha direito de receber. “Ah, vocês moram em Copacabana, Ipanema, não precisam...”. Depois dessa, eles não me viram nunca mais.

FR – Era o preconceito por vocês morarem na Zona Sul.

J – Mesmo quando fui pro Flamengo tinha sempre uma piadinha porque eu morava em Copacabana. Até esse tipo de coisa te motiva. É, moro em Copacabana, estudei em escola particular. E não podia ser um deles? Porque eu não erro concordância, porque falo tudo no plural? Parece que você tem que ser um burro pra ser jogador de futebol. Pro dirigente, isso é ótimo. Quer dizer, era ótimo, porque hoje em dia o procurador tomou conta dessa situação. Foi tanto dinheiro que entrou no mundo do futebol que hoje todo jogador tem procurador e assessor de imprensa!


BEACH SOCCER: PODIA TER SIDO MELHOR

FR – Falando em dirigentes, você é praticamente um fundador do beach soccer. Saiu da liderança do esporte por não concordar com os rumos que foram tomados - pensar em negócio lucrativo sem investir na base.

J – Eu fui jogar beach soccer porque eu queria o desenvolvimento do esporte. A primeira vez que joguei foi em Miami, em 1993. Eu pensei: “Isso aqui é a cara do Rio de Janeiro”. E o futebol de 11, da praia, tinha praticamente acabado. E o formato do BS, feito por um ítalo-americano, foi criado para a TV, privilegiando a parte técnica. Poucas faltas, jogadas espetaculares...

Fiz a ponte entre o criador do BS e a Koch Tavares, que organizaria o esporte. Só que a Koch Tavares vislumbrou os grandes eventos apenas. Eu queria que o esporte crescesse – como cresceu – mas não só na parte comercial. Nunca vi um torneio, organizado por eles, do juvenil, de feminino. Pra eles só interessa Júnior Negão, Neném, Junior e cia. pra botar na TV Globo.

Eu sei que fui usado, mas fiz isso porque eu queria ajudar a garotada que eu conhecia desde que eram pequenos. O meu objetivo eu alcancei: todos eles estão encaminhados, viraram jogadores profissionais. Cansei de dizer pra eles: “isso aqui não é mais uma brincadeira, tomou uma dimensão muito grande, vocês têm que ser profissionais”. Eu tava ali mais por divertimento, viajei como nunca. Com o BS fui a Okinawa, Marseille, Montenegro.

FR – Você acha que esse tipo de pensamento, de não pensar na base e só vislumbrar os grandes eventos comerciais, também está no futebol atual?

J – É diferente, porque o futebol profissional é regido por outra legislação. A seleção no futebol aconteceu porque existiam os clubes. No beach soccer foi o contrário: primeiro foi a seleção, depois a seleção, e a seleção. O ideal seria fazer um campeonato carioca, um paulista... E isso jamais passou pela cabeça dos grandes organizadores.


FLA-FUTEBOL: O MELHOR CAMINHO, NEGLIGENCIADO

FR – Tangenciando um pouco esse assunto, é por aí a sua decepção quando você foi gerente de futebol do Flamengo, em 2004?

J – Não, ali envolve outros ingredientes. Lá a minha expectativa era a de fazer o que eu tinha pensado pra depois de parar, isto é, a profissionalização do departamento de futebol. Porque não dá pra discutir com um dirigente que chega no clube às 6 da tarde quando eu estou lá desde as 8 da manhã. Ele foi pra empresa dele, fez a empresa dele lucrar, e depois vem pro Flamengo sem ter responsabilidade nenhuma. Se ele contratar um jogador que não der certo, ele não vai tirar dinheiro do bolso pra ressarcir o clube.

Mas [como gerente de futebol] eu era o profissional responsável pela contratação, junto com o treinador. No documento ia a minha canetada, e esse dirigente não podia chegar pra mim e dizer alguma coisa. Primeiro, porque tecnicamente ele não entende muito. E esse é um dos problemas: eu tinha muita responsabilidade e pouca autoridade.

E a autonomia financeira? O futebol é responsável por 86% da receita do clube, e no departamento de futebol só fica 32%. Tem alguma coisa errada nisso.

Então, você vai juntando as coisas. E principalmente: a falta de pulso do Marcio Braga. Quando ele me chamou, eu senti uma firmeza incrível. Eu pensei: agora é a hora que o futebol, pelo menos no Flamengo, vai dar uma reviravolta. E continuo achando que é só esse o caminho. Mas aí o Marcio, num determinado momento, não sustentou o seu projeto. As razões ele nunca me disse.

E era um projeto maravilhoso. Tinha a idéia de um centro de treinamento, pra formar o jogador, conquistar títulos e satisfazer a torcida, que é a razão de ser de todo clube, pelo menos no Brasil. E ele abandonou todo esse discurso que fez comigo.

FR – Como era a sua equipe?

J – O Fla-futebol tinha quatro profissionais: eu, na parte técnica; José Maria Sobrinho na parte executiva; João Henrique Areias na de marketing e o Paulo César Pereira, advogado que ficava com a gente 24 horas.Todos os problemas que envolviam o futebol você resolvia dentro do futebol, no dia. Não esperava o dirigente chegar no dia seguinte...

FR – E chegou a funcionar por um tempo?

J – Bem demais. O Flamengo foi campeão carioca em 2004 sem recursos, com dois meses de salários atrasados. A gente chegou junto dos jogadores, os mais “cascudos”, experientes do elenco, e eu disse: não vou mentir pra vocês, porque vocês não gostam de mentira, como eu também não gostava. A situação é essa. E se o clube, principalmente o presidente, tivesse dado o suporte necessário para essa relação de confiança continuar...

FR – Mas teve algum episódio que você pensou: “acabou, é a gota d'água”?

J – A coisa foi gradativa. Mas a gota d'água foi quando o Artur Rocha, vice-presidente geral, aproveitou que o Marcio Braga estava em viagem, trouxe o Dimba e pagou R$ 1,330 milhão na mão dele, e o elenco todo com salários atrasados. Isso é uma falta de respeito com todo mundo que estava no futebol do Flamengo desde o início. Como na semana passada eu tinha dito que, se tivesse interferência eu ia sair, ele acreditou que com aquilo ali eu ia pedir pra ir embora. Eu disse: “Ah, é? Quero ver me mandar embora”. E o Artur Rocha sempre torceu contra.

FR – Por quê?

J – Porque o sistema profissional implantado ia tirar desses caras uma série de coisas que nunca ficaram tão claras pra todo mundo. Infelizmente essas figuras continuam dentro do futebol. E em 2004 era a hora de implantar esse sistema. Não precisava ser comigo, poderia ser qualquer outro profissional. O projeto Fla-futebol conseguiu [ganhar] títulos, arrecadar recursos, revelar jogadores, como Luiz Alberto, André Bahia, Ibson, Jean. E os procuradores desses jogadores levaram [o dinheiro da venda] e o clube não recebeu nada.


LEI PELÉ: PROCURADORES ACHAM CLUBES

FR – Essa é uma outra questão, a existência dos empresários (procuradores).

J – Os clubes são reféns dos empresários, porque a lei possibilita que eles usem o seu lado capitalista. Quem tem, manda, quem não tem não vai mandar. Vai ser obrigado a vender ou então se prostituir. A Lei Pelé praticamente fez dos clubes reféns dos empresários.

FR – Por causa do passe aos 25 anos?

J – É, você não deu ao clube a possibilidade de usufruir do seu atleta, pelo menos no mínimo de tempo possível para que possa te ressarcir de tudo o que você investiu. O André Bahia, o Júlio César tinham uns dez anos de Flamengo. Foram embora e quem ganhou? Seguramente, os procuradores. E ganharam a maior fatia. A própria Lei Pelé não tutela os clubes.

FR – Ou seja, a Lei Pelé podia até ter uma certa intenção, mas no fundo prejudicou.

J – É que a gente costuma copiar todo mundo. Apareceu a Lei Bosman. Deveriam ter estudado a lei a fundo para aplicar isso no Brasil. Porque no Brasil os clubes vivem de vender jogadores, até hoje. Se o São Paulo, o clube mais bem administrado do Brasil, não vender uns dois jogadores por ano, cai.

Dia desses o presidente Horcades, do Fluminense, falou: “O presidente de clube que disser que não precisa vender jogador, estará mentindo”. Fora isso, a única forma que você tem de trazer dinheiro para o clube é por meio de vitórias e conquistas. Se você for à final, tem uma cota a receber, tem o prêmio do patrocinador, prêmio do fornecedor.

Na segunda parte da entrevista, Junior fala da experiência como técnico, Copa de 82 e a vida de comentarista.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Caio Júnior?

Vantagens da escolha de Caio Júnior para técnico do Flamengo: já treinou times em formação (Paraná) e um time de grande torcida (Palmeiras). Também já disputou o Brasileirão e a própria Libertadores. Mesmo jovem, tem certa experiência considerável.

Também parece ser humilde, admitindo que vai seguir o script de Joel Santana, já que o andar da carruagem está bom para o Fla. Ok, pode ser uma diplomacia necessária, já que Joel sai com moral e não é de bom-tom dizer que uma nova era começa.

Mas é ótimo que haja uma transição negociada, com os dois técnicos sentando juntos e trocando informações estratégicas sobre o elenco inteiro.

Desvantagens: Caio Júnior é do tamanho do Flamengo? Ney Franco não era, embora tenha conquistado títulos (na Copa do Brasil ele chegou ao Fla nas fases finais, como Caio Júnior na Libertadores de agora). Mas a torcida agüenta outro Ney Franco?

E as dúvidas: vai botar o time no ataque? Vai domar os barris de pólvora Souza, Toró, Jônatas etc? Parece ter se entendido com Edmundo, na época de Palmeiras.

O que pode ser vital é o voto de confiança da diretoria do Flamengo, prosseguindo na linha de um planejamento continuado para o resto do ano. Isto é, sem fazer Caio Júnior pensar que a qualquer momento pode cair.

Mas se os bons resultados não vierem, não há quem segure a fúria irracional do torcedor.

domingo, 4 de maio de 2008

Campeões com sobras

As finais dos campeonatos estaduais desse domingo não deixaram dúvida: foi campeão quem tinha que ser.

A começar por São Paulo: o Palmeiras confirmou o favoritismo que ganhou ao longo da competição e espantou uma possível zebra (principalmente depois da goleada sofrida para o Sport). Não só ganhou como tripudiou: 5 x 0, com Valdivia fazendo gol de craque.

Quer mais? Alex Mineiro terminou como artilheiro isolado, e Luxemburgo mostrou que não entra em time algum pra perder títulos.

No Rio Grande do Sul, o Internacional humilhou mais: venceu de 8 x 1 o Juventude, que estava feliz pela vantagem de um gol conseguida na primeira partida. Só o primeiro tempo terminou 4 x 0.

Quer mais? O goleiro Clemer, de pênalti, fechou a goleada, entrando pra história.

Em Minas, o Cruzeiro ainda saiu com uma vitória, diante da missão impossível do Atlético. Vai com a faixa de campeão encarar o Boca Juniors pela Libertadores.

No Paraná, um golzinho sem-vergonha foi o suficiente pro Coritiba ser campeão. Perdeu de 1 x 2, mas tinha ganho a primeira partida por 2 x 0. De nada adiantou o Furacão igualar a marca histórica de 11 vitórias seguidas, no início do campeonato.

No Rio, uma pessoa foi a grande responsável pelo placar da partida no primeiro tempo e ao final do jogo: Joel Santana. Colocar o time do Flamengo pra jogar na defesa é pedir pra tomar gol. Mesmo sendo falha de Bruno, o Botafogo sobrava em campo quando fez 1 x 0.

Depois, Obina e Diego Tardelli mais uma vez fizeram a diferença. Pra não pensarmos que Joel fez uma loucura, foram substituições treinadas na Gávea. Tanto é que todos os demais rubro-negros em campo sabiam exatamente o que fazer na nova formação. Marcinho mais uma vez mostrou que a torcida pode confiar nele: tem raça, disposição, talento, e chama a responsabilidade pra si.

O Botafogo poderia ter uma chance de mudar a partida, se tivesse reservas à altura. Você, torcedor botafoguense, ao saber que Adriano Felício e Fábio vão entrar em campo, espera grande coisa?

O elenco do Fla também está mais acostumado a disputar finais e jogos decisivos do que o elenco do Botafogo. Desde a Libertadores de 2007 a base rubro-negra é a mesma: são duas Libertadores, dois Campeonatos Cariocas e uma ressurreição no Brasileiro. Isso pesou ontem também.

Todos campeões inquestionáveis, seja pelas finais, seja pelo retrospecto na competição.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Barcelona é mais um

Após contratar Henry e ainda contar com Eto'o, Ronaldinho, Messi, Deco e Thuram, as expectativas da torcida catalã para 2008 foram às alturas. Os dois anos sem título pareciam chegar ao fim. Mas o que acaba de acabar mesmo é o tal supertime do Barcelona.

Não é a primeira vez que um time formado por vários "galáticos" naufraga sem ganhar nada. O exemplo mais recente é o do arqui-rival Real Madri (cuja trajetória rendeu em excelente livro-reportagem). Na capital espanhola Ronaldo, Zidane, Figo, Beckham e Raúl não foram os megacampeões que se esperava.

Por que isso acontece? Por que tanto talento junto não dá certo?

Talvez porque, apesar das exacerbações midiáticas individuais dos craques de agora, o futebol nunca tenha deixado de ser um esporte coletivo. E para funcionar coletivamente, é preciso equilíbrio.

Assim, um time que tinha Pelé, Pepe, Coutinho, Zito e Gilmar também tinha Lima, Mengálvio, Tite. Zico, Júnior, Raul e Leandro jogavam com Marinho, Manguito, Figueiredo. Até na seleção: Garrincha, Didi e Nilton Santos atuavam juntos de Bellini, Mauro, Zózimo.

Se há os jogadores espetaculares, é preciso que existam os nem tanto (mas nem por isso sem talento ou valor). Sobre estes as expectativas não são tamanhas, ainda podem fazer seu trabalho sem tanta pressão. Sem a cartola entregue pela assistente de palco, não há jeito do mágico tirar o coelho lá de dentro...

Ou então: você pode tentar sobreviver alimentando-se de filé mignon todos os dias. Mas vai sentir falta da complementação básica de um feijão com arroz. Os dirigentes e o técnico devem saber montar um time "balanceado", com o "tempero" dos foras-de-série empolgando todo o conjunto.

De nada adianta vender milhões de camisas dos galáticos se a galeria de troféus é cada vez menos estrelada.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A cada quatro gols, uma surpresa

A noite de quarta foi recheada de goleadas inesperadas, gerando esperanças onde antes não havia. Ou mascarando erros - o que pode ser fatal mais à frente.

É impressionante a capacidade do time do Flamengo para complicar jogos fáceis. O América é o lanterna do campeonato mexicano e já tinha declarado que um empate (em casa!) era um bom resultado. E não consegue acertar um seqüência de três passes.

Pois o Fla fez questão de jogar como se fosse o lanterna do Brasileirão. Muitos erros de marcação primários, passes curtos desperdiçados sem parar, mau posicionamento. Parecia um time que nunca tinha jogado junto.

E sem meio-de-campo. Jailton, como sempre, inútil; Ibson, inexplicavelmente parece que desistiu de jogar futebol; Kléberson, irritante. Só se salva Cristian, que mesmo assim não cria. Daí, Luizinho é lateral autêntico, ao contrário do ala Leo Moura, que se aventura nos bons passes e lançamentos.

Só Juan não dava conta, e Souza voltava pra buscar jogo e se via isolado no ataque, já que Marcinho não aparecia para tabelar.

Só que o ex-jogador do Atlético-MG provou que é a melhor contratação do Flamengo na temporada. Com lançamento de Bruno (mais uma prova do deserto de criação no meio-campo), Marcinho dominou, partiu pra cima e fez algo simples que não estava sendo feito: chutou a gol. 1x0 Fla.

Logo depois, um empate com falha de marcação no cruzamento. No segundo tempo, os mesmos erros e, de novo, Marcinho resolveu chutar (certo) a gol e fez o 2x1. Numa bisonha falha de marcação da zaga, 2x2. O rubro-negro parecia querer drama atrás de drama.

Até que, após mais um chute na trave, Léo Moura (que não estava impedido), cruza para Tardelli (esse eu tenho minhas dúvidas) que só empurra pro gol. Ainda deu tempo, sob o terror de levar mais um gol de empate, de fazer o quarto e praticamente garantir a vaga nas quartas.

Mas se não resolver esse terrível meio-campo, sei não...

O Fluminense também conseguiu ótimo resultado vencendo o Nacional fora de casa. Precisa manter a concentração pra não "apagar" durante as partidas decisivas.

O Cruzeiro fez um importante gol na Bombonera e pode vencer o Boca Juniors em casa. Só não pode pensar que saiu com vantagem, porque o Boca é o Boca, veterano campeão da competição.

O São Paulo arrancou um empate com o Nacional do caldeirão de Montevidéu, mas a torcida ainda hesita em comemorar, com razão.

O Palmeiras caiu de quatro em Recife, provando que sua prioridade é o Campeonato Paulista. Ficar de bem em casa com a torcida, ganhando dos principais rivais, vai dar a tranqüilidade necessária pra começar bem o Brasileirão - onde Luxemburgo deve apostar todas as suas fichas certeiras.

Se eu fosse o técnico da Ponte Preta, diria para seus atletas que domingo é o jogo da vida deles. E aí...

O Corinthians não quis saber do Goiás e fez um 4 x 0 pra dar moral. Também é um time que não empolga e nem possui grande elenco, mas vai se valer da raça pra avançar na Copa do Brasil. Será que a torcida esperava um placar tão dilatado?

domingo, 27 de abril de 2008

O primeiro tempo terminou

Com exceção de Minas Gerais, pode-se dizer que os jogos de ontem das decisões estaduais equivaleram apenas a um primeiro tempo que terminou. Nenhuma vantagem considerável que não possa ser revertida domingo que vem.

Flamengo e Botafogo fizeram um clássico que começou travado. A primeira etapa do jogo foi um festival de faltas para "matar" a jogada e marcação forte e atenta. O calor contribuiu também.

O alvinegro, seriamente desfalcado, continuou sendo bem armado por Cuca, mesmo quando ele resolveu substituir Túlio Souza aos 18 minutos, devido ao cartão amarelo. Só que, além da tática, do entrosamento e da mão do técnico, é preciso talento. E isso falta no banco do Botafogo.

A exceção é o goleiro Renan, que jogou como veterano, salvando dois gols certos do Flamengo no segundo tempo. Boa sombra pra Castillo não deixar a peteca cair.

No segundo tempo, o jogo mudou devido a uma grata surpresa: uma ousadia de Joel. Ok, nem tanto assim, porque ele treinou as alterações que fez.

Mas até então o meio-campo do Fla poderia ser reserva do Botafogo: nenhuma criatividade e muitos passes errados. As jogadas só saem com os laterais ou na volta dos atacantes.

Marcinho se movimentou bem, assim como Tardelli, e Obina confundiu de vez a marcação alvinegra. Num excelente passe de Léo Moura, o Fla fez ótimo contra-ataque. O baiano voltou a fazer o que sabe: se posicionar na área pra empurrar a bola pro gol. Se tentar fazer diferente, pode desistir.

O Botafogo sentiu os desfalques, portanto domingo que vem zera tudo. E como voltará o Flamengo da viagem ao México?

O Palmeiras venceu por 1 x 0 a Ponte Preta, em Campinas. E quem disse que isso é colocar a mão na taça? Marcos salvou várias bolas e o Verdão tomou sufoco no final. Mais uma vez: apenas o primeiro tempo da decisão terminou.

Em Minas, o Cruzeiro surpreendeu a própria torcida e venceu de 5 x 0 o arqui-rival Atlético. O centenário alvinegro já começa a azedar, principalmente se não for bem na Copa do Brasil. Mas será que a Raposa vai ter fôlego pra segurar o Boca Juniors na Bombonera?

Com o Atlético-MG comprovando a derrota no campeonato mineiro domingo que vem, anote aí: Geninho já recebe um telefonema de Kleber Leite na mesma noite.

Isso porque todas as outras opções de técnico já estão comprometidas com Copa do Brasil ou Brasileirão.

Quem vai topar pegar o Fla em meio à Libertadores? Só quem não tem nada a perder com o risco. Geninho se enquadra perfeitamente, embora eu não o considere bom técnico. Mas se tiver espírito "copeiro", quem sabe?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Leandro e a moral

Depois de muito lenga-lenga, Leandro Amaral volta a ser jogador do Vasco da Gama. Bom para os torcedores da Colina, bom para o futebol, que volta a contar com um talentoso jogador em atividade.

O doutor Sócrates foi o que melhor resumiu a situação de Leandro em sua coluna na revista Carta Capital. A realidade dos empresários e seus resultados para o nosso futebol também já foi apontada aqui.

Mas será que a torcida vai entender esse contexto? Meu palpite é o seguinte: ele começará hostilizado, mas assim que a qualidade de seu futebol sobressair, tudo será esquecido.

Moral da história: o Vasco ganha um ótimo reforço para a Copa do Brasil e para o Brasileirão. E Leandro Amaral aprende (?) que não se deve confiar cegamente, e sem pensar, em empresários e advogados de ocasião.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Uma outra Libertadores

Definidos os confrontos das oitavas-de-final, começa agora uma nova competição. Não se pode exagerar, mas a verdade é que muito do que foi apresentado pelos times até agora não vai valer tanto a partir da semana que vem.

Campanhas ruins na primeira fase têm a chance de se redimir a partir de agora. Líderes estão em pé de igualdade com os últimos classificados, e podem cair a qualquer instante. Cada jogo será uma final, e isso muda tudo.

O Flamengo sofreu (de novo!) ao enfrentar o Coronel Bolognesi. Pareciam estar de ressaca da notícia da saída de Joel Santana. Mas Bruno resolveu salvar a noite com um lindo gol de falta. Milhões de passes errados e o golaço do goleiro: assim se resume a noite rubro-negra.

Aliás, o Fla vai jogar na altitude novamente, viajando até o México em meio às finais do Carioca. E no jogo de volta estará com técnico estreante. Perigo...

O São Paulo prossegue se especializando na contagem mínima e avança. O Cruzeiro pega de cara a pedreira chamada Boca Juniors. Mas os times brasileiros têm chance de chegar à final.

O Botafogo não deixou a Portuguesa fazer a festa e venceu com placar suficiente. Chega com moral à final do Carioca embora desfalcado, o que pode prejudicar um pouco. Digo um pouco porque em um mês Cuca montou um novo time, no início da temporada. Pode fazer novas mágicas para um jogo.

A garotada do Vasco vai tentando redimir a imagem do time. Desde o jogo com o Fluminense mostram disposição e raça, numa evolução crescente. O mata-mata da Copa do Brasil favorece o contexto do elenco cruzmaltino. Com Edmundo fazendo a diferença então...

A Ponte Preta promete endurecer contra o Palmeiras, anunciando até marcação especial sobre Valdivia. E quanto a Diego Souza, Kleber, Alex Mineiro, Lenny, Leo Lima...? Missão dificílima para a Macaca.

Cadeia é solução?

Não estamos falando da violência urbana, infelizmente tão corriqueira nos dias de hoje. O fato em questão aconteceu na Holanda, onde um jogador foi preso após aplicar uma entrada violenta, fraturando a perna do adversário.

Em tempos de Eduardo da Silva no estaleiro por seis meses e Martin Taylor livre, leve e solto após três jogos de suspensão, a notícia chama a atenção.

O agravante é que o agredido, ao contrário do atacante brasileiro do Arsenal, teve que encerrar a carreira. O agressor, que pegou mais de dois anos de cadeia, alega que as regras do jogo não podem ser aplicadas fora do futebol.

Só que o tribunal alegou que a agressão extrapolou os limites do campo. Se alguém vai ficar desempregado por ter sido agredido por outrem, então o caso está encerrado.

Mas será que a medida, diante da pusilanimidade dos tribunais esportivos, seria uma possível solução? A discussão rende, mas imagine se tivessem feito o mesmo com Pelé, em plena Copa do Mundo? O Rei do Futebol aposentando-se porque um carniceiro uniformizado quebrou sua perna.

Porque, no fundo, tudo é uma questão de proporção. O campeonato holandês não irá influenciar o mundo do futebol. Mas mostrou o exemplo de uma tentativa de punir o agressor proporcionalmente ao impacto de sua investida.

Sabemos que há aqueles que adoram endurecer as leis e as penas pensando que isso resolve tudo. No entanto, no futebol padecemos do outro extremo: condescendência demais. Só que isso vem extirpando o talento dos gramados.

Ou não percebem que, no andar da carruagem, isso futuramente pode trazer graves prejuízos ao esporte - e ao negócio do esporte?

A quem interessar possa (e tiver estômago para isso), veja a jogada que gerou a prisão do agressor:

terça-feira, 22 de abril de 2008

Virou bagunça?

O presidente da federação sul-africana diz uma coisa, Kléber Leite diz outra, Parreira "acha que"...

Afinal, Joel vai ou não vai?

Joel e a estaca zero

"Vou receber em 30 meses mais do que recebi em 30 anos".

Com essa frase Joel Santana jusitificou sua saída do Flamengo, além do fato de dirigir o país-sede da Copa 2010. Alguém imaginava o Natalino (especialista em estaduais e em tirar o Fla do rebaixamento) nessa situação algum dia?

Portanto, como estamos falando de futebol profissional, nada de lamentações. No calculismo que deve guiar as importantes decisões da vida, Joel fez o que deveria fazer.

Isso posto, mesmo entendendo perfeitamente a escolha de Joel, é inegável que o Flamengo agora está à deriva. Numa boa situação (na final do Carioca, nas oitavas da Libertadores), mas à deriva.

Podemos até acreditar que o time fará tudo para dar um título estadual como presente de despedida. Mas e na competição continental? Começar a fase eliminatória com um novo comandante é mais complicado do que se pensa.

A relação dos jogadores com Joel era bem definida, há quase um ano. Agora, zera tudo e fica o mar de incógnitas: como será o estilo do próximo? Como vai armar o time? O novo técnico, por pretensa segurança, manterá o esquema atual? Conhecerá o elenco para saber mexer? Os jogadores pensam: continuarei titular? Terei mais chances do que agora?

Questões legítimas que necessitariam, no mínimo, de uma pré-temporada para começarem a ser respondidas.

E se os resultados não vierem, a diretoria do Flamengo vai manter o sangue-frio e manter o planejamento a longo prazo (como fizeram com Ney Franco e o próprio Joel)?

A nação rubro-negra está em suspenso.

PS: Geninho e Parreira como possíveis opções? Pelmordedeus...

domingo, 20 de abril de 2008

E os campeões?

Dois jogos bem diferentes. A decisão da Taça Rio, uma senhora pelada (sem trocadilho). A semifinal de São Paulo, uma confirmação da melhor equipe com o melhor futebol.

Foi duro de aturar Botafogo e Fluminense. Os times estavam travados, nenhuma jogada ousada e pro ataque, como foi o futebol dos dois times durante o segundo turno do Campeonato Carioca. O jogo foi ruim.

O Fluminense volta a apresentar uma característica preocupante: tem "pipocado" nas decisões. Perdeu para o Botafogo na semifinal da Taça Guanabara; teve um jogo complicadíssimo com o fraco Vasco, ganhando nos pênaltis; e agora está de fora de mais uma final.

Thiago Neves sumiu em campo, assim como Junior César e Conca. A marcação de Cuca é eficiente, mas o camisa 10 tricolor não chamou o jogo pra si, não procurou as faltas perto da área... Irreconhecível. Sofre do mesmo mal que o time parece sofrer?

O Botafogo plantava-se bem mas não armava direito. As únicas jogadas eram os cruzamentos pra achar Wellington Paulista (que, após a artilharia e gols decisivos, está cada vez mais marcado).

Renato Silva tinha tudo pra ser o vilão do jogo, ao fazer pênalti em Washington (nenhum jogador alvinegro reclamou). O centroavante do Flu retribuiu o favor batendo na trave. O zagueiro virou então herói ao marcar o gol da classificação.

A expulsão de Alessandro foi absurda, inventada por um árbitro ruim e sem critério (que já ajudou o Botafogo contra o América, na final da Taça Guanabara de 2006). Mas a de Jorge Henrique, não. Faz tempo que o atacante não joga bem e se especializa em arrumar confusão nos minutos finais de jogo.

Com dois a menos e muita disposição a mais, o Botafogo reedita a final do Carioca de 2007, levando nas costas a melhor campanha. Ou o Flamengo (que pode ter o sério desfalque do faladeiro Juan) resolve partir pra cima ou vai levar novos bailes do time da Estrela Solitária.

O Palmeiras tinha em mente o objetivo de reverter a vantagem surpreendente do São Paulo. Dito e feito. Léo Lima é o símbolo de mais um time nas mãos de Luxemburgo: de renegado a peça vital, com direito a gol importante.

A Ponte Preta faz a final com o Verdão tendo vencido o time de melhor campanha. Uma pena o Guaratinguetá sair agora, mas já escreveu seu nome na história do Campeonato Paulista de 2008. Acredito que a Macaca fará bons jogos nas finais, mas acho difícil vencer esse Palmeiras.

sábado, 19 de abril de 2008

Dois a mais valem por quantos?

A novidade da rodada de fim de semana são os cinco árbitros para a final da Taça Rio. Além do árbitro principal e dos auxiliares (os bandeirinhas), haverá um atrás de cada gol para ajudar em lances duvidosos (gol com a mão, se a bola entrou ou não) e conter invasão de campo.

Eles não vão interromper a partida, mas poderão ser consultados pelo juiz, responsável por tomar qualquer decisão.

Antes de olhar o mérito da iniciativa, faço questão de saudar a vontade de fazer diferente, de experimentar, nesse tão conservador esporte (quanto às regras).

Há alguns anos o campeonato paulista experimentou dois árbitros em campo e tempo técnico. Se as tentativas vão ter sucesso ou não, é pra se avaliar depois de acontecerem.

Só pra complementar esse raciocínio: veja quanta emoção o futebol ganhou só de impedirem que o goleiro pegue com a mão bolas recuadas com o pé. E ainda inspirou o surgimento de atletas da posição com habilidade no chute e no passe.

No entanto, a iniciativa vem da instável comissão de arbitragem da Federação de Futebol do Rio, e resolvem experimentar logo numa final (e pior: em jogo do Botafogo!). Isso é temerário, pois se der certo mas algum clube esquentar a cabeça por se sentir prejudicado, o possível benefício será eclipsado pelas reclamações.

Os árbitros atrás do gol não poderão marcar nada, mas informar o juiz de irregularidades. Vão informar sobre o agarra-agarra na área? Qual deles será marcado, já que são tantos?

Ou será que a intenção é apenas inibir esse tipo de jogada (e outras que acontecem assim que o juiz dá as costas para acompanhar o contra-ataque)?

A despeito de tudo isso, de nada adianta se os árbitros não estiverem bem preparados tecnicamente.

Uma boa polêmica sobre experimentações com o juiz em jogos finais foi o microfone escondido de José Roberto Wright na decisão da Taça Guanabara de 1982. Acompanhe:

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Primeiras oitavas

O Botafogo foi a São Paulo e arrancou uma empate (quase vitória) pra cima da Portuguesa. Wellington Paulista segue os passos de Túlio Maravilha: faz gol em todo jogo, de qualquer jeito. Já é artilheiro também da Copa do Brasil, e se mantém humilde. Assim vai longe. Mas o jogo foi ruim demais, e o gramado nada ajudou.

O Inter surpreendeu ao perder do Paraná. Ou foi o contrário? Já são dois gols de desvantagem, o que pode valer muito na volta. O Atlético-GO conseguiu fazer um gol na casa do São Caetano e sai com uma boa perspectiva, apesar do 1 x 2.

O Vasco poupou o Animal de 37 anos, mas ele acabou entrando e, ironicamente, resolvendo o jogo em cobrança de pênalti. Sobra fôlego mas falta experiência no elenco cruzmaltino. Numa competição que a cada fase fica mais tensa, isso vai pesar.

O Corinthians-SP mais uma vez perdeu para o Goiás, numa rixa que vem desde a briga pra não cair em 2007. Paulo Baier estava iluminado, pois mesmo batendo muito mal uma falta, ela resultou no 1º gol. 3 x 1 é um placar extenso, mesmo com o gol fora de casa. O que será do Timão nesse 1º semestre?
E que susto, Santos... Vai aprontar essa de novo?