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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O berço é um lugar inesquecível


Sábado resolvi quitar uma dívida com meu passado. Mal sabia eu que estava indo ao encontro das raízes do futebol, ainda vivíssimas, apesar de tudo.

Na entrada, a bilheteira Rosane informa que o ingresso é R$ 10,00 a inteira. Não entendi quando vi o valor de R$ 20,00 impresso. "É que o Maciel dá uma força, e aí a gente cobra esse valor". Maciel é o atual presidente do São Cristóvão, que naquela tarde jogaria com o Aperibeense pela Série B do Campeonato Carioca. Um subsídio do comandante para aumentar o número de presentes.

Chego às 16h30, está rolando a preliminar com os juniores. Atrás do gol fica a velha guarda da "torcida cadete", apelido do clube que fica próximo ao CPOR, de formação de cadetes do exército. Um deles usa a camisa do Tabajara F.C.; outro, o único jovem do grupo, veste a número 2, toda rosa (as cores do São Cri-Cri são preto, rosa e branco). Os demais são o estereótipo dos velhinhos de fila de banco - a ranzinzice dessa vez se manifesta, claro, contra o trio de arbitragem.

A sala de troféus está fechada, mas não é tão vazia como se imagina. Na porta, uma foto ilustrada do time do último título: o Campeonato Estadual de 1926 - simplesmente o ano em que minha única avó ainda viva nasceu. Ao lado, a estátua do padroeiro dos motoristas, que dá nome ao clube.

A cantina humilde lembra aquelas de escola: os clássicos (e massudos) joelhos, refrigerantes e biscoitos mil. Uma televisão, ironicamente, mostra Ronaldo falando de sua carreira. É notório o contraste do conforto milionário do filho ilustre com a ferrugem da lâmpada e os azulejos antigos. O gramado, não faz muito tempo, era mantido rentinho ao chão graças ao profissionalismo de várias ovelhas.

A torcida tem cerca de 50 pessoas, também de todas as idades, algumas mulheres. Uns garotões fazem uma rodinha no último degrau da arquibancada e se comportam como se o jogo do gramado à sua frente acontecesse na TV: conversam mais do que torcem, deixando pra se manifestar nos lances de perigo e pra xingar o bandeirinha que fica a dez passos do público. Assim como os bagunceiros da classe, zoam qualquer figuraça (que eles julguem assim) do local. Um jovem de cabelo alto e barba pelos lados da mandíbula já é acolhido: "Fala Wolverine!" Uns CDFs podem ter se juntado ao grupo: "Parece o Dom Pedro I. Ô império brasileiro! Poder Moderador!". A impressão é que, num bairro com poucas opções de lazer, os jogos do São Cristóvão são um "point" da galera.

Atrás da arquibancada de cinco degraus, há um campo de futebol soçaite que os times usam pro aquecimento. Tudo a céu aberto, a não ser os "camarotes": bancadas do prédio administrativo que fica atrás do gol. Um baixinho com bigode de Hitler e temperamento idem parece ser o zelador. Arrumou confusão com o time inteiro do Aperibeense que ousou aquecer-se de chuteiras, e não de tênis, no campo soçaite. Principalmente com o camisa 11, que lhe pareceu atrevido. "Tu viu a atitude dele? Eu não gostei foi da atitude", dizia, justificando seu zelo. Mais tarde ligou pro presidente do clube - o Maciel - perguntando se um sócio que usava  camisa do Flamengo poderia continuar nas dependências do clube. Parece ofensa mesmo: estádio pequeno e ainda tendo que dividir com os outros? Depois, outra aporrinhação: "Cadê a ambulância??", gritava no rádio para os responsáveis por trazer o equipamento indispensável em qualquer jogo, seja de que divisão for.

Acima de uma pretensiosa tribuna de imprensa, a única publicidade do estádio está pintada na parede: "Pousada Locomotiva 206, em Conservatória".

Celso, um barbudo que lembra os personagens das histórias de Asterix, já está rouco na preliminar. Sabe o nome de todos os jogadores, mesmo da categoria junior (para azar dos atletas). Parece ser da diretoria. Ao seu lado está Raimundo, historiador informal do clube: já escreveu dois livros sobre o São Cristóvão. Um conta as memórias do título de 1926; outro, a trajetória dos Cadetes até os dias atuais. Não se manifesta muito, mas quando o bandeirinha marca um esquizofrênico impedimento após cobrança de lateral, parte pro alambrado pra espinafrar a árvore genealógica do árbitro auxiliar.

Sentado sobre uma almofadinha, daquelas feitas pro arquibaldo clássico, está Marcus Vinicius. Camisa do São Cristóvão comprada numa feira de colecionador, boné com cara do primeiro que viu pela frente antes de sair de casa, chinelos. Está acompanhado do filho, Marco Túlio, de 11 anos, moreno, cabelos pretos e inquieto com a aventura da Figueira de Melo. Nas mãos do garoto, um pedaço de papelão com o escudo do clube desenhado à mão com caneta Bic e a inscrição "Vamo ganhar".

Por que torcer pro São Cristóvão? "Somos botafoguenses, mas o segundo time é o São Cri-Cri, pois vários parentes na família eram torcedores fanáticos do clube", conta Marcus Vinicius. O filho já está no alambrado saudando a entrada do time profissional com seu cartaz estilizado. Vai passar o jogo inteiro em volta do campo e pelos camarotes pra acompanhar o time. Quando o pai pergunta por que ficou atrás do gol que o São Cristóvão defendia, em vez de acompanhar os ataques e possíveis gols, responde maroto: "Eu tava xingando o juiz".

Marcus também é um colecionador de revistas sobre o Campeonato Carioca, tem exemplares desde 1940. Fala das agruras de ser da segunda divisão: "Pro São Cristóvão ser campeão, tem que disputar 42 jogos até o fim do ano. É mais do que o Campeonato Brasileiro da Série A, que são 38 partidas". Lembra de 1973, quando seus dois times estiveram em rodada dupla no Maracanã. Na preliminar, o Botafogo perdeu de 2 x 0 para o Bonsucesso. O jogo principal era São Cristóvão x Flamengo, e os rubro-negros que tinham sacaneado os botafoguenses tiveram que aguentar a roda da fortuna: 1 x 0 pros Cadetes, no Maracanã lotado.

O jogo parece fácil pros donos da casa. O Aperibeense arma uma retranca e não consegue acertar passes fáceis, que dirá contra-ataques perigosos. Logo os bagunceiros o apelidam de "Aperebeense". Celso parece o próprio técnico do São Cri-Cri. Como todo torcedor fanático, sente que está diante de nada menos que a final do Mundial Interclubes. "Ele é muito nervoso!", ri Marcus Vinicius. Conta que um dia o São Cristóvão perdeu de 4 x 0 pro Bonsucesso (que algoz!) e Celso ficou deprimido, as pessoas o chamavam para ir embora e ele não ia, ficou um bom tempo na fossa que uma derrota acachapante pode causar. Marcus estranhou. "Achei que ele estivesse acostumado. Ultimamente, pro São Cristóvão a derrota é o normal".

Segunda divisão não discrimina ninguém, nem nas fatalidades. O camisa 11 do Aperibeense tem um mal súbito e desmaia sozinho no canto do gramado. O pequeno Hitler chama a ambulância (não se sabe se pensou "Deus castiga atrevimentos" nessa hora). Entra em campo um casal de enfermeiros, ele magro e ela gordinha. Os bagunceiros, honrando as tradições escolares, não perdoam. O camisa 11 levanta, aparentemente sem problemas. Daí em diante os bagunceiros só vão chamá-lo de Padiola.

O primeiro tempo termina 0 x 0. A maioria dos presentes vai à cantina. Marcus Vinicius e Marco Túlio dividem um Guaraviton (patrocinador do Botafogo) e comem um joelho cada um. "Tá frio", reclama o pai. O São Cristóvão parte pra cima no segundo tempo. O camisa 18 entrou e animou a partida, criou várias jogadas, driblou, causou cartões amarelos. Os Cadetes erram o alvo, pra tortura de Celso: chutam pra fora na pequena área, cabeceiam na trave, quase gol olímpico... Na improbabilidade do futebol, o Aperibeense arma um contra-ataque, o quarto-zagueiro da casa capota no ar e a bola sobra pro Padiola, de cara pro goleiro, quase na marca do pênalti - bola pra fora, de maneira inacreditável. Os apelidos parecem fazer justiça.

Um jogador do Aperibeense é expulso, aparentemente de maneira infantil. (Assistir qualquer jogo ao vivo expõe como nossas certezas são eternamente dependentes do replay). Os próprios colegas parecem não ter gostado, principalmente o Padiola. Na parada técnica, o camisa 11 arruma briga com o time inteiro, não dá pra saber por quê (repórter de campo também faz falta). Parecia plenamente recuperado do mal súbito.

Faltando menos de dez minutos para o fim, o São Cristóvão consegue uma falta perto da área. Cruzamento e... gol! Do camisa 7, um branquinho e loirinho batizado de "Garoto Juca" pelos bagunceiros. Até o fim do jogo vai ser um sufoco, já que o time da casa recua e o Aperibeense vai pro desespero. O lance mais incrível acontece fora de campo: Celso vai embora antes da partida terminar.

No apito final, aplausos aos vitoriosos. Marcus Vinicius e o filho vão em direção à saída de campo dos atletas. O garoto quer tirar fotos com os jogadores. Nenhum deles é famoso ou já apareceu na TV.

Nasci no Engenho Novo, mas fui criado no bairro imperial de São Cristóvão. Morei na Rua São Luiz Gonzaga, depois no Campo de São Cristóvão, estudei no Colégio Pedro II, corri e joguei bola na Quinta da Boa Vista. Só saí de lá ao casar, já com 27 anos.

Só que cometi um pecado imperdoável para um autêntico morador que adora futebol: nunca tinha ido ao acanhado estádio da Rua Figueira de Melo assistir a um jogo do São Cristóvão Futebol e Regatas.

Ao pagar essa dívida, acabei indo ao encontro da gênese do esporte. Ou como já foi dito por alguém, do "futebol em estado puro". Naquela tarde de sábado parecia ter voltado a 1926, quando não havia TV, marketing, salários milionários, elitização dos estádios, confusões extra-campo. Apenas paixão, fidelidade, empenho, idiossincrasias, dedicação, alegria, tristeza. Sem elementos como esses, não há futebol.

Mas era 2011, portanto não se trata de nostalgia. É justamente a constatação que apesar dos vaticínios propagados (e perpetrados) por várias direções, o futebol não morre, mesmo no acanhado estádio da Figueira de Melo. Só está aguardando as testemunhas.

ATUALIZAÇÃO: blog do Marco Túlio

À direita, os camarotes dos Cadetes
  

O Fenômeno na TV

Bola na área, o "Garoto Juca" (camisa 7, último à direita), se prepara pra subir...

 
... gol do São Cri-Cri!


Outros vão nascer aqui?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ser ou não ser ídolo?


À essa altura, até o mais desmemoriado torcedor sabe da importância que Ronaldo teve na história do futebol mundial e, sobretudo, do brasileiro. As retrospectivas protagonizaram o dia (ainda que num tom lamentoso. Parecia que o jogador tinha morrido) e não vou me alongar aqui sobre o que o Fenômeno fez na carreira.

O que eu queria destacar é que, como tantos outros craques, ele era ídolo onde passava. Mesmo quando ficou sem jogar, não sumiu da mídia, nem do coração esperançoso de quem torcia por ele. Mas será que Ronaldo teve a real noção do que é ser ídolo?

Digo isso porque Ronaldo sempre reclamou que o Brasil não trata bem seus ídolos, à medida que as críticas apareciam - sejam sobre o trabalho em campo ou sobre os episódios diversos fora dele.

O problema é que, para Ronaldo, tratar bem significa paparicar. Desde os 16 anos levou uma vida de rei (fruto de seu trabalho, sem dúvida), com toda a corte à sua volta para protegê-lo e passar a mão na cabeça quando preciso. Pra completar, com a Globo capitalizando em cima de seu carisma e tentando blindá-lo para não comprometer a cara imagem.

Só que, como todo ídolo, Ronaldo é humano. E por mais que a religião do marketing tente negar, uma hora essa humanidade vem à tona. Seja numa contusão, num hipotireodismo, num motel da Barra da Tijuca ou no Twitter.

Entretanto, como Ronaldo vive no reino da fantasia (pois uma carreira sem críticas é coisa de ficção), nunca suportou que alguém falasse mal dele. Isso se manifestou até mesmo na hora da despedida. Quando citou a causa de sua gordura e a impossibilidade de perdê-la, quis deixar pesada a consciência de muitos críticos (e torcedores rivais que não perderam o espírito zoador do brasileiro). E ainda disse que não guarda mágoa. Tô vendo...

Todos os ídolos foram criticados em diversos momentos da carreira. E tiveram que lidar com isso, de algum jeito. Zico ganhava motivação pra revidar em campo; Romário rebatia, criando frases inesquecíveis; Garrincha não podia negar o ocaso de seu futebol - assim como Ronaldo agora.

Ronaldo deixa muitas lições para futuros jogadores: determinação, coragem para ser um jogador decisivo, alegria a cada gol marcado. Mas também lembra que ninguém é perfeito ou intocável - nem pode pensar que é. Falta humildade a muitos craques e jovens promessas, e Ronaldo é uma das referências para eles. Nesse ponto, pode ter sido mau exemplo.

E para os míopes de plantão, ressalto: destacar esse aspecto da carreira de Ronaldo não desmerece nem apaga o que ele fez com chuteiras.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os opostos, o carisma e o iluminado


Era noite de emoção para as duas maiores torcidas do Brasil. Enquanto o Flamengo contava as horas pra festejar Ronaldinho Gaúcho em campo, o Corinthians seguia com Ronaldo para vencer, antes de tudo, o seu próprio nervosismo para passar pelo Tolima e manter viva a Libertadores.

No Brasil, estádio lotado, mosaico, de novo a Gávea volta a ter um camisa 10 de renome, na teoria e na prática. Mas como seria sua volta aos gramados? Fama de baladeiro, chopinho na quadra do samba, muito oba-oba...

Na Colômbia, estádio cheio (não lotado), gramado ruim, camisa 9 que há mais de um ano vive só da fama, engabelando técnicos e torcida, parceiro do marketing e de um presidente falastrão.

Ronaldinho correu, buscou o jogo, deu carrinho, fez suas jogadas de efeito. O Flamengo, desentrosado e ainda desequilibrado entre ataque e defesa, suava pra não levar um susto do quarto melhor time do Rio neste início de estadual.

Ronaldo não conseguia tirar o zero do placar, pênaltis à vista.

O Flamengo botava o coração na ponta da chuteira pra festa não virar pesadelo, não virar mico. O Corinthians se virava pra driblar a redução de seu elenco pro sonho não virar mico.

O Flamengo martelou, tentou, chutou pra fora, substituiu, pressionou. Ronaldinho caiu bem como capitão, se movimentava, incentivava o time, levantava a torcida num "vamoporra!" clássico. Devido ao cansaço, fixou-se na faixa esquerda do campo, deu passes açucarados para finalizações amargas. Cadê a farra, o chinelinho, que mostrariam um R10 se arrastando em campo?

Talvez estivesse em Ibagué, quando o Timão levou um, depois outro. Assistindo tudo lá da frente da outra meia-lua, talvez.

Mas o iluminado nem sempre é o que está debaixo dos holofotes. Assim foi com Fio Maravilha, Nunes, Cocada, Adriano Gabiru, Bujica, Tupãzinho... e Wanderley.

Fim de jogo, estádio ovacionando, hora certa daquela saidinha rápida do gramado depois de ouvir as babaovices dos microfones.

Antes disso Ronaldinho faz questão de cumprimentar Wanderley, o homem que garantiu a sua festa. Depois, agradece a cada canto do estádio, reverencia de volta, mareja os olhos. Quando os homens-óbvios empunham seus instrumentos captadores, flagram um craque que parece ter reencontrado um motivo para ser feliz em campo.

Foi só um jogo do Carioquinha 2011. Mas pergunte ao corintiano se ele não gostaria de trajar vermelho e preto no Engenho de Dentro hoje.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O homem incógnita


Enquanto Ronaldinho Gaúcho é oferecido no espeto a várias mesas pelo próprio irmão, ninguém está falando de uma questão crucial: que Ronaldinho voltaria a jogar no Brasil? Sim, haverá retorno de marketing, receitas, estádios enchendo para vê-lo... Mas e o resultado em campo, qual será?

Está certo que o auge de sua carreira já passou. Fez chover no Barcelona, foi campeão da Liga dos Campeões, disputou três Copas (vencendo a primeira), mas veio para o Milan em baixa. No tempo da solidão de Kaká no meio-campo da Era Dunga, seus lampejos voltaram a credenciá-lo para a Seleção. Teve uma boa fase, mas não se pode  dizer que era aquele Ronaldinho.

E talvez aí esteja o "pulo do gato" para que Ronaldinho volte a apresentar um bom futebol regularmente: reconhecer que não é mais aquele Ronaldinho. No programa Juca Entrevista, o ex-craque Sócrates deu a dica: "Ele precisa admitir que é humano, deixou de ser mito. Precisa se reiventar".

Foi o que os grandes jogadores brasileiros fizeram durante suas carreiras. A velocidade do início de Romário deu lugar ao "gênio da grande área". A explosão arrasa-quarteirão de Ronaldo foi substituída pelo "jeito Túlio" de jogar, estando na hora certa e no lugar certo, com o talento que não depende do físico. Ah, e ambos voltaram ao Brasil, o que torna tudo mais fácil.

Ao que tudo indica (sei lá...), Ronaldinho está voltando ao Brasil. Mas e o resto? Não adianta insistir nos malabarismos de sempre, já que fica notória a falta de eficácia no futebol atual. Neymar e Ganso já aprenderam que não adianta só rebolar, tem que ter bola na rede. Não adianta se iludir (e tentar iludir torcida e crítica) de que ainda é aquele Ronaldinho. É um preâmbulo para expectativas frustradas.

Se lembrar da sua boa fase esse ano no Milan, Ronaldinho poderá encontrar um novo rumo. Em vez da correria e das acrobacias, o camisa 80 se esmerou por lançamentos  milimétricos que deram várias vitórias ao time rossonero. Em outras situações, já perto do gol, tirou da cartola finalizações que seu talento ainda permite. Fora as perfeitas cobranças de falta.

Em suma: Ronaldinho Gaúcho precisa aprender que menos é mais. Principalmente no Brasil, que sofre com o êxodo de jogadores, ele tem que se dar conta que não é preciso muito para impressionar e resolver jogos, sem ficar pressionado por torcida e crítica. Além dos exemplos acima, Ronaldinho ainda pode lembrar de Adriano 2009.

E Ronaldinho ainda possui uma grande vantagem em relação à trinca citada: tem uma fisiologia que, treinando seriamente, consegue se manter bem nos 90 minutos. É agora ou nunca, dentuço.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O eterno chororô e a maturidade de Neymar

Vou te dizer: não tem nada mais sacal e repetitivo no futebol do que o chororô "o-adversário-não-está-nos-respeitando-ao-tocar-a-bola-com-classe-e-fazer-firulas-para-passar-o-tempo". A carpideira do momento é o Corinthians, tendo no técnico Mano Menezes e no Fofômeno seus principais porta-vozes. Os Meninos da Vila deitaram e rolaram e agora o nhémnhémnhém está do lado do Parque São Jorge.

O que eu fico mais encucado é que os corintianos alegam que esse tipo de atitude não tem objetividade, e visa humilhar o adversário. Então, se o Santos enfiasse uma goleada em vez de fazer a bola correr, isso seria menos humilhante? Quando o Corinthians estiver garantindo uma vaga na fase seguinte da Libertadores e, para não se arriscar, fizerem a bola correr graças ao talento de Ronaldo, Dentinho, Defederico e cia., isso será condenável?

Pra completar o festival de absurdos, Mano Menezes reclama que qualquer contato com os Meninos da Vila é considerado falta, ou cartão amarelo. Bom, se eles têm habilidade e o único recurso dos marcadores acaba sendo "matar a jogada" (o eufemismo mais frequente na boca dos técnicos), então o juiz tem que marcar. Não é óbvio?

"Ah, futebol é esporte de contato". Sim, mas se existem jogadores que fogem do contato para visar somente a bola, isso também deve ser considerado pela arbitragem.

Mas o bom mesmo é ver a maturidade e a personalidade de Neymar, provando que não é mais uma mosca-morta no cenário do futebol brasileiro. Denunciou a ameaça do zagueiro Chicão (que não precisa desse tipo de coisa, é bom jogador) em agredi-lo, afirmou que vai continuar jogando assim e que o Santos utiliza os recursos que têm. Parece veterano falando. Diante de Neymar, Robinho fica ainda mais infantil do que já é.

O Corinthians quer dar o troco? Encontre o Santos na semifinal, faça um placar favorável e firule de volta. Ou já esquecemos que o Brasil deu ao mundo jogadores como Pelé, Garrincha, Julio Cesar Uri Geller, Denner, Robinho mesmo, Ronaldinho Gaúcho, Denílson e tantos outros que fizeram o que suas torcidas adoram - humilhar o adversário com o drible, seja em que situação for.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O rótulo

Um dos grandes problemas na análise de futebol de hoje é quando se observa o rótulo, não o conteúdo. É o que se vê quanto a Ronaldinho Gaúcho, por exemplo.

Colaram em Ronaldinho o rótulo de “ele não é decisivo quando o time precisa”, “pipoqueiro”, “amarelão”, e por aí vai. E é a partir desse estereótipo que as atuações do jogador do Milan são avaliadas. Também é pelo rótulo que opinam se ele deve ir ou não à Copa.

Ronaldinho decidiu um jogo do campeonato italiano? “Ah, só contra time pequeno”. Decidiu o clássico contra a Juventus? “Ah, a Juve faz campanha de rebaixado”. Não jogou bem contra a rival Inter de Milão? “Tá vendo? Pipocou...”.

Hoje, contra o Manchester United, Ronaldinho fez o primeiro gol, deu o passe pro segundo e levou perigo à defesa inglesa várias vezes. Mas como o Milan perdeu levando dois gols de Rooney, automaticamente o brasileiro é classificado como decepção. Se Kaká tivesse o mesmo desempenho com o Real Madrid, com o mesmo resultado final, ninguém diria isso.

É curioso constatar os dois pesos e duas medidas quando se trata de avaliar os medalhões que fracassaram na Copa de 2006. O já citado Kaká ainda faz jus a ser intocável, mas e quanto a Ronaldo, Robinho e Adriano? Ao contrário de Ronaldinho, estes três desistiram de jogar na Europa e voltaram ao Brasil. Diante do êxodo constante dos nossos melhores (e jovens) talentos, é claro que eles iriam sobrar por aqui.

Ronaldinho Gaúcho foi o único a tentar prosseguir jogando em alto nível, sem artimanhas disfarçadas de saudade de casa. Mesmo em seus piores dias na Itália, continuou buscando melhorar em meio aos melhores craques do planeta. E tem conseguido.

Ronaldo, ausente em metade dos jogos do Corinthians, merece a Copa? E Robinho, um fracasso no Manchester City (onde por muito tempo era o jogador mais talentoso mas não mostrou isso em campo)? Adriano conseguiu maior regularidade, mas não na Europa. A condescendência com eles é proporcional à crueldade com que julgam Ronaldinho Gaúcho.

E desistam de esperar o Gaúcho na Copa 2010. Dunga será mais fiel a seus lacaios, como Josué, Felipe Melo e Gilberto Silva. E até ao próprio Robinho. Está além da capacidade do técnico da Seleção flexibilizar seus métodos em nome da presença de um talentoso (embora inconstante) Ronaldinho. Para Dunga, o importante é a estabilidade e a lealdade, critérios que nunca preocuparão os medíocres com vaga certa na Copa.

Será que Ronaldinho vai ter que reinventar o futebol pra ser levado a sério novamente?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ronaldo é gol. E ponto, por favor!

Se há algo ruim no futebol atual, é que as futilidades das celebridades invadiram o meio. Sabemos mais das aventuras extra-campo dos jogadores do que de seu desempenho lá dentro. Além disso, temos que aturar um festival de bobagens por eles proferidas, fruto da falta de educação dos próprios e à puxa-saquice exacerbada de parte da crônica esportiva.

Não pude acompanhar a rodada de ontem. Mas hoje, ao ver as manchetes, vi que o futebol brasileiro teve a ênfase necessária. O Cruzeiro segurou o empate graças à boa atuação do goleiro Fábio; o Corinthians arrasou o Fluminense (que quase empatou) com três gols de Ronaldo - dois golaços, pelo que contam.

E é isso que Ronaldo ainda pode oferecer de significativo para o Brasil: gols e boas atuações. Tratar o Fenômeno como se fosse um porta-voz ou um pensador, ou alguém com opiniões fortes e fundamentadas, é encheção de saco. E Ronaldo, de uma vez por todas, precisa saber que o que ele faz de melhor é dentro de campo. Feche a boca, please!

Portanto, é bom ver o centroavante recuperando a alegria de jogar, em território brasileiro. Fred foi expulso na hora que o Flu crescia em campo, mas não crucifiquemos o jogador. Precisamos de um Fred em boas condições pra termos bons jogos, assim como um Adriano, um Nilmar. E tais atletas precisam se dar conta que cuidar da carreira é garantia de aceitação geral.

Quanto ao Cruzeiro, acho difícil que o título escape da Toca da Raposa. O Estudiantes tem seus méritos pra estar na final da Libertadores, mas um time que tem Verón velhinho como termômetro não pode ser páreo para o ágil time de Ramires.

domingo, 17 de maio de 2009

Ainda é cedo

(Foto: Lucas Uebel/VIPCOMM)


Apenas a segunda rodada do Brasileirão, e nada especial para ser destacado. Um perde e ganha sem muito sentido e só mais a frente teremos ideia de quem é quem no campeonato de 2009.

Talvez uma coisa apenas tenha se mantido: a dificuldade do Flamengo em fazer gols. Há quem diga que o esquema de Cuca não favoreça os atacantes que dispõe, mas a verdade é que eles - únicos obrigados a marcar - estão perdendo gols fáceis. Com Juan e Leo Moura sem variar as jogadas, apenas afunilando pelo meio, o time fica mais previsível. E quase que o Avaí chega à vitória por mais um drible perigoso de Bruno dentro da pequena área. É por essas imaturidades que o goleiro não disputa vaga na Seleção.

O Corinthians, mesmo com Ronaldo, não venceu o Botafogo - que sem Maicossuel pode começar a rezar. Volto a dizer que o Timão é composto de um bom goleiro, Dentinho e Ronaldo (quando marca gols). O resto são jogadores esforçados, somente. Méritos para Renan, que saiu muito bem em todas as bolas mas precisa urgentemente melhorar a reposição pro ataque.

Fluminense e Barueri fizeram um jogo medíocre. Ao menos a garotada tricolor de Xerém não sente a pressão e mostra que está à disposição de Parreira.

O Internacional, com time misto, venceu o Palmeiras em casa. Não é novidade: o Colorado é muito forte no Beira-Rio, e lá, além de Nilmar, seus jogadores mais talentosos se desinibem. Veja pelo drible de Taison na jogada do primeiro gol. A torcida vai ser um 12o. jogador no pescoço do Fla, sábado. E nem precisa de foguetório na madrugada - ou o Inter só consegue vencer se o adversário estiver em condições físicas piores?

Quando os times pernambucanos vão melhorar o estado de seus gramados? Começo a desconfiar que os deixam ruins de propósito, para ser um obstáculo a mais para o adversário que não conhece o lugar exato dos buracos. O Cruzeiro teve seu toque de bola seriamente prejudicado, e o Náutico venceu bem nos Aflitos - belo gol de Carlinhos Bala.

Na série B, o Vasco conseguiu sua segunda vitória seguida, sem sofrer gol. Léo Lima precisa definir sua personalidade: ou ele é o cri-cri que toma cartão amarelo por reclamação a menos de 2 minutos de jogo; ou aparece em campo com belos passes e lançamentos. A segunda opção será melhor pra ele e para o Vasco, que ainda carece de um banco mais forte. Destaque para o bom lateral-esquerdo Ramon, que jogou com raça o tempo todo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Devagar com o andor

Ronaldo fez belos gols no Paulistão e foi eleito o melhor jogador do torneio. Indiscutível? Talvez.

Àqueles que engrossam o coro de vê-lo na Seleção, e logo, recomendo calma. Conforme trechos de entrevista que irá ao ar no Fantástico (quantas já foram?), o Fofômeno diz que está com 93kg e que precisa perder mais 2 ou 3.

Lembrando que Ronaldo chegou à Copa de 2006 pesando 94,7 kg, e que foi obrigado a perder 4,5 kg às pressas para estar em condições de agüentar um jogo da competição internacional.

Então, Ronaldo (e seus 93kg) pode até ser artilheiro e melhor jogador de um Campeonato Paulista com 4 times grandes e milhões de pequenos. Mas daí a estar apto para a Seleção Brasileira, disputando de igual para igual com marcadores do resto do mundo...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nada substitui o talento. Só o acaso

(Foto: Marcos Ribolli/Globoesporte.com)

E as finais do Carioca e do Paulista desse domingo mostraram bem isso. Na Vila Belmiro, Pelé assistia ao jogo e deve ter lembrado de seus tempos em campo. No Maracanã, quando a qualidade sumiu do gramado, veio a sorte de uns (e azar de outros).

São dois os grandes assuntos do domingo: os dois gols de Ronaldo. Todas as limitações do time do Corinthians são transformadas pelo "Midas" assim que ele domina a bola. Um "balão" no meio do campo é resolvido numa linda matada de bola e sai o primeiro gol. Depois, uma bola despretensiosa na ponta-direita é resolvida com um drible seco e um golaço de cobertura. Vale o ingresso.

Felipe fez milagres, Kleber Pereira dessa vez apenas perdeu gols, e fica difícil pro Santos virar no Pacaembu. Uma semana pra se esquecer dos resultados, mas para aprender as lições de levar a sério todas as competições.

No Maracanã, Ney Franco começou com a melhor estratégia: reconhecer que o seu elenco é pior que o do Flamengo e encurtar todos os espaços possíveis para o adversário. O nervosismo de não poder estar no ataque ou mandando no jogo estava claro nos rubro-negros (e na torcida).

O único vacilo foi de Alessandro, que fez pênalti em Juan. Mas mesmo depois do gol, o Fla não conseguiu se impôr. Maicosuel nao aceitava a marcação e só não conseguiu um cartão para Williams por que o árbitro não quis. O gol de Reinaldo foi uma consequência da postura do Botafogo. Pra completar, Maicosuel criou a paradinha na falta, matou a barreira e Juninho virou o jogo.

Só que no segundo tempo Ney Franco começou a empatar a partida, ao recuar o time ainda com o exíguo placar por 2 x 1. Se continuasse "sufocando" o Fla (ao menos nos primeiros 10 minutos), poderia ter conseguido mais um. E deu o imenso azar de Reinaldo e Maicosuel se machucarem no mesmo lance.

Porém, o ataque do Fla poderia estar no banco do Botafogo: é uma indigência só. Os Emersons se confundem: quem evita e quem faz gols? Na falta de alguém pra fazer a diferença, a raça de Williams e o acaso cederam o empate.

Deplorável a atitude de Juan ao querer intimidar Maicosuel daquele jeito. Pior ainda é ver Cuca e Williams defendendo o lateral e acusando o alvinegro de "falta de humildade". É ridículo. Como se o próprio Juan já não tivesse enervado seus marcadores com dribles humilhantes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O retorno da camisa 9

(Foto: Agência/Reuters)
Bendito seja o ano de 2009, caracterizado ainda no primeiro trimestre como o da festa dos centroavantes natos. A camisa 9 especializada em fazer em gols está de volta ao futebol brasileiro: Ronaldo, Washington, Keirrison e, vá lá, Josiel e Elton. Ontem foi mais um dia de gols, que é o melhor momento do esporte bretão.

Ronaldo furou, cabeceou na trave e fez dois belos gols, além de jogar os 90 minutos. Está voltando a ser um jogador normal. Parebéns à comissão técnica do Corinthians, que está sabendo dosar a euforia com o Fenômeno, lidando bem com a imprensa, a torcida e o elenco do Timão. Poderiam dar um workshop no Flamengo.

Mas esse time do Corinthians não me convence. Não acho estranho terem saído apenas com o empate contra a Ponte Preta. Foi uma partida entre dois times no máximo esforçados. A diferença, cada vez mais, está com os dois jogadores acima da média: Ronaldo e Dentinho.

Josiel vai pregando peças com a torcida e o técnico do Fla. Enquanto reserva, era artilheiro; uma vez titular, a média de gols ficou inversamente proporcional às obinices feitas em campo. Quando a diretoria traz um centroavante novo, o Oswaldo Montenegro da Gávea carimba 3 gols. Quem é o camisa 9, afinal?

Bela partida de Erick Flores. Olho no garoto, que tem tudo pra ameaçar o posto de Leo Moura (que já está de saída) com sobras.

O Vasco voltou ao caldeirão de São Januário e arrepiou um pouco sua torcida ao começar perdendo do Mesquita. Mas Rodrigo Pimpão e Jefferson não deixaram a peteca cair. O cruzmaltino bota um pé nas semifinais.

Foi só eu elogiar a eficiência do Botafogo ao enfrentar os pequenos para pisarem na bola. Victor Simões e Reinaldo (que golaço dele!) cumpriram com suas obrigações, mas a defesa falhou. E o time precisa urgentemente de um goleiro seguro. Renan e Castillo são ótimos para serem reservas dos reserva, e só.

E Celso Roth vai se segurando no comando do Grêmio. Como se já não bastasse o clima em torno de seu trabalho desde o começo do ano, Felipão ainda se insinua pra treinar o time. O frango do Aurora foi o parceiro de Roth para mais essa sobrevida.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Fredmania é boa pro Rio

(Foto: André Durão/Globoesporte.com)

Se São Paulo tem Ronaldo, o Rio tem Fred. O ex-atacante do Lyon retornou ao Brasil causando frisson na torcida, trazendo grandes esperanças de gols, embalando projetos de marketing e venda de camisas e sendo acompanhado passo-a-passo até sua estreia. Um fenômeno (sem trocadilho) que faz bem ao futebol carioca, como disse Júnior na transmissão da Globo ontem.

A diferença, além do histórico dos dois centroavantes, é que Fred não está em fim de carreira, nem acima do peso ou se recuperando de uma contusão sinistra. A torcida tricolor agradece e exultou com seus dois gols ontem, diante do Macaé.

Quando Parreira comete o milagre de trocar um de seus amados cabeças-de-área por um meia, a fim de virar o jogo contra um fraco adversário, nada pode dar errado. De resto, o que sempre deve funcionar: Thiago Neves, Conca, Everton Santos e Fred infernizando a defesa. Quando os laterais acertarem (e jogarem menos sozinhos), o Fluminense vai conseguir voos mais altos.

(Um parêntese: que mágica é essa dos dirigentes do Flu, que conseguem trazer Fred e Parreira e penhorar suas jovens promessas a fim de não serem punidos pela Justiça do Trabalho?)

O Botafogo ignorou a Cabofriense. Ignorou, não: abusou dela. Com grande variação de jogadas, muita velocidade e segurança pra tocar a bola, o time de Ney Franco acalma a torcida após a goleada do meio de semana.

Maicosuel caracteriza-se cada vez mais pelo atrevimento e pela ousadia na hora de tentar as jogadas. Há quanto tempo não aparecia um jogador assim em General Severiano? De novo, o futebol carioca agradece.
(Foto: Ricardo Cassiano/Lancenet)

E o Flamengo? Ah, o Flamengo... O malcriado Bruno falhou feio e o tigrinho do campeonato fez 1 x 0, bagunçando o instável estado emocional do elenco rubro-negro. Levando em consideração a defesa milagrosa do goleiro Marcos Paulo no fim do jogo (em chute de Maxi), dá pra ver que a noite não era do Fla.

A torcida tem que parar com a dor-de-cotovelo por Obina. O clube está sem grana e não vai contratar outro atacante tão cedo. Josiel comete as mesmas tosquices que o baiano - mas tem média de quase um gol por jogo! Na fase atual, é reclamar de barriga cheia.

O Vasco completa os 100% com gol de Fernando, cabeceando de costas. Um indício de que a fase é boa mesmo.

Em São Paulo, o Corinthians não conseguiu vencer o Santo André, e Ronaldo agradece. Já parece fundamental ao time mesmo sem estar plenamente recuperado.

O Palmeiras segue no ritmo de Keirrison, e pra mim é favorito ao bicampeonato. Depois da Copa de 2010, o jovem centroavante pode (e deve) aparecer na Seleção Brasileira.

O São Paulo volta a jogar um futebol eficiente, guiado por Hernanes. Ao lado de Ramires, do Cruzeiro, é a maior injustiça das não-convocações de Dunga. E pensar que esses dois assistem pela TV o "craque" Josué com vaga garantida pra 2010...

Pelé fez escola e deixou seguidores. Se não foi no talento eterno, ao menos na idade pra ser lançado no futebol. Depois de Robinho e Diego, o Santos lança o garoto Neymar, igualmente cercado de expectativas. Que Vagner Mancini tenha os pés no chão pra não "queimar" a nova promessa. (Foto: Agência Estado)

quinta-feira, 12 de março de 2009

As "nações" agradecem


Quando todos pensavam que o Flamengo ia afundar de vez devido ao clima tenebroso no clube, ele faz a sua melhor atuação em 2009. Pode-se dizer que a expulsão de Ibson foi excesso de vontade, e que com um a menos é difícil manter o nível. Mas até esse momento o time convenceu.

Bruno não era ameaçado, a zaga segura, marcação sobre pressão, vontade de ganhar, nada de acomodação. Essa fórmula deu ao Fla a vantagem de 2 x 0 com sobras. Dessa vez, Léo Moura foi o nome do jogo com passes precisos, uma bela cobrança de falta e oportunismo para conferir lá na frente.

Destaque também para Zé Roberto, que se multiplicou em campo, para a boa cobrança de falta de Juan (com grande ajuda de Bruno) e para o jovem Wellington, que possui categoria e seriedade. Mesmo com Josiel fazendo gol, o ataque ainda é um problema, e Paulo Sérgio sofre da "síndrome de Rodrigo Mendes": pode até fazer gol de título que não cairá nas graças da torcida.

Ao final do jogo, a torcida gritou o nome de Andrade enquanto Bruno dava entrevista. "Se eu sou o problema, me mandem embora". A torcida enalteceu seu ídolo e o aspirante a tal se sente ofendido, a ponto de vislumbrar sair? Ê ato falho...

O Fluminense venceu na estreia de Parreira, mas o técnico (que adora um sistema defensivo) ainda terá muito o que acertar. Mas com Thiago Neves, Conca, Everton Santos e Fred o Flu tem um ataque de impor respeito.

Ronaldo começou jogando e, mais uma vez, mostrou que talento não se desaprende (mas precisa de uma ajuda da forma física). Além de bons chutes, fez um gol de quem sabe o que faz. Se a recuperação do centroavante se consolidar, Mano Menezes e sua prudência serão os grandes responsáveis.

E a torcida mais uma vez execra Douglas por não passar uma bola para Ronaldo. Esse pessoal não tem mais o que fazer, não? Coloquem a pressão em cima de quem já foi craque e quer voltar, e não num mediano jogador. Aliás, um jogador que a torcida corintiana enaltecia como grande meio-campista nas vacas magras da série B...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ronaldo: o exagero e ambiguidade

O Corinthians acaba de contratar um reforço estelar. Craque de 32 anos que fez história na Seleção Brasileira, tendo participado de 3 copas: numa delas, foi o principal jogador do Brasil, além de artilheiro. No entanto, após graves contusões nos joelhos e com uma vida boêmia questionável, ninguém sabe se poderá render o que dele se espera. Certo é que só a sua presença como jogador do Timão já começa a encher os cofres do clube.

De quem você acha que o parágrafo acima está falando? Ronaldo ou Garrincha? Acertou quem disse os dois. As semelhanças entre os atletas nesse momento da carreira são impressionantes, e já tinham sido abordadas pelo jornalista Mauricio Stycer em seu blog.

Quais seriam, então, as diferenças? A primeira é que Mané tinha que entrar em campo, cheio de infiltrações nos joelhos, para que o Corinthians ganhasse uns trocados. Ronaldo sequer precisa treinar para que a instantânea exposição na mídia e o afã de patrocinadores de toda ordem surja aos pés do departamento de marketing. É o nosso Beckham.

Outra diferença é que Garrincha era um alcóolatra inveterado. O Fenômeno parece impressionar também ao virar copos, mas nada que chegue ao quadro do grande camisa 7 da Seleção.

Quem acompanha este blog percebe que não tenho dado tanto destaque aos fatos sobre Ronaldo. É proposital, e nada tem a ver com o fato de ser carioca ou flamenguista (não me senti "traído" pelo jogador só porque ele nào acreditou na conversa fiada dos dirigentes rubro-negros). Simplesmente não sou adepto da bajulação excessiva nem gosto de supervalorizar a realidade.

Mas é assim que vive Ronaldo e sua corte midiática (que inclui torcedores). Ele respira, sai de casa, entra no carro, espirra, treina, não treina, muscula, não muscula, dorme, acorda... e não sai da nossa TV, dos nossos jornais, das nossas revistas. E isso sem sequer entrar em campo!

Quero deixar bem claro que não vaticino o pior para Ronaldo. Se ele voltar a jogar bem (e quiser viver uma vida de atleta por isso), é mais um craque em território brasileiro. Mas não adianta exigi-lo antes da hora nem exagerar nas celebrações de sua recente volta.

De tanto ser paparicado, Ronaldo ficou mal acostumado. Gosta desse trato, mas fica chateado quando é flagrado em situações que ele preferia ter deixado ocultas. Não entende por que a tal corte o expõe na mesma proporção dos momentos de sucesso.

Paradoxalmente, é na corte que Ronaldo busca a reparação. Caiu na gandaia com travestis? Entrevista exclusiva no Fantástico (e em sua massiva audiência, torcedores). Ficou na esbórnia e fugiu da concentração prestes a estrear pelo Corinthians? Pito de Fátima Bernardes em outra exclusiva, dessa vez para o Jornal Nacional.

E se, na sua volta, não recebe um passe do meio-campo Douglas, acabam com a carreira de Douglas. Se faz um gol empatando um clássico no último minuto (quer coisa mais épica?), está a um passo da Seleção Brasileira. Afinal, o que é exagero e o que é realidade nessa história toda?

Fato: Ronaldo está voltando aos poucos, ainda está fora de forma, mas parece não ter perdido a característica da arrancada em direção ao gol. Só. O mais é expectativa desnecessária.

Vamos ser proporcionais, minha gente. Vamos acompanhar o Fenômeno da maneira que ele deve ser acompanhado. Deixar isso virar circo de novo é crueldade (e encheção de saco) com quem acompanha futebol. E pode ser crueldade até com Ronaldo, se ele voltar a viver no mundo da lua por causa disso tudo.

Palmo a palmo

(Foto: Ivo Gonzalez/O Globo)

Assim vai ser o segundo turno do Campeonato Carioca, a Taça Rio. Nem mesmo o já finalista Botafogo parece abrir mão de eliminar os dois jogos extras (embora a Federação e os próprios clubes nunca dispensem a igualmente extra renda da TV e da bilheteria). Mas, como diria o Silvio Lancelotti, o título do certame está mais aberto do que nunca.

O Flamengo jogou um primeiro tempo bom, com serenidade pra tocar a bola e esperar o momento certo do gol. Só Juan destoava, estava visivelmente fora de ritmo de jogo. E assim foi, quando o bom zagueiro Douglas abriu o placar. Mas no segundo tempo o nervosismo tomou conta do Fla quando, após seguidos erros de cobertura no lado esquerdo, levou o empate da Cabofriense.

A afobação tomou conta, e Leo Moura acertou dois cruzamentos que foram bem aproveitados por Ibson e Everton. Mas o marido da Perla não jogou nada além disso, diga-se de passagem. Todo o oba-oba em torno de sua evolução é ilusório. Cuca não consegue manter o time num estado psicológico necessário para reverter partidas fáceis com calma. E o técnico agora está na dúvida entre Josiel, Obina, Maxi ou Paulo Sérgio. Boa sorte...

O Fluminense traz de volta Parreira, que sempre fez boas campanhas com o clube. Chega com vantagem pois já pôde perceber as fragilidades do time, ao contrário de Renê Simões e sua sofrida vida de técnico brasileiro, que teve que (tentar) fazer isso durante duas competições.

O tricolor só conseguiu vencer o Mesquita no finalzinho, com (mais um) gol de Everton Santos - um dos mais regulares e eficientes atacantes desse início de temporada. Se conseguir um bom entrosamento com Fred, a torcida do Flu poderá finalmente dormir em paz após Roger e Leandro Amaral.

O Botafogo poderia ter vencido com mais facilidade o time mais fraco do Carioca 2009, o Tigres. Dá-se o desconto da decisão de domingo passado e da partida pela Copa do Brasil na quarta. Bom ver Victor Simões de volta, e fazendo gols.

O Vasco não deu sustos na torcida, vencendo o Friburguense por 3 x 0 e com sobras. Carlos Alberto, além de fazer gol, não levou cartão amarelo - é um avanço. Se não perder pontos em casa (ou no tapetão), o cruzmaltino vai incomodar nessa Taça Rio.

***

Ronaldo fez o gol do empate no clássico contra o Palmeiras. Próximo passo: pressão em Dunga para levá-lo à Copa de 2010. Ainda nesta semana, post especial sobre o tema fenomenal.

ATUALIZAÇÃO ÀS 22:31: Já começou.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Paz, enfim

(Foto: Carlos Mota/globoesporte.com)

Se o salário de dezembro sendo pago logo antes da partida já ajudou, a fragilidade do Ivinhema e o clima de festa (de um público que poucas vezes viu o rubro-negro de perto) só completou a alegria do Flamengo. Mas justiça seja feita: dessa vez o time jogou bem e com seriedade, diferente de outros confrontos com times pequenos em 2009.

Os jogadores parecem estar mais à vontade com o "novo" esquema de Cuca. A camisa não pesa pra Everton Silva, que cumpriu a híbrida função de zagueiro-ala-lateral com empenho. Kléberson jogou bem, mas é irregular. Ibson e Leo Moura tendem a melhorar na criação, e Zé Roberto fazendo gols é o que o ataque precisa. Pela primeira vez no ano se viu o Fla trocando passes sem afobação, o que é um avanço.

O Internacional, grande favorito para tudo que é título em 2009, quase apronta pra sua torcida em casa. O União Rondonópolis não se enquadra no estereótipo de equipes como o Ivinhema, e jogou um futebol redondo e consistente. Só na raça mesmo o Colorado conseguiu passar à segunda fase da Copa do Brasil.

Na Libertadores, o Brasil está bem na fita. O Sport vai queimando minha língua e fazendo uma campanha segura, vencendo a atual campeã LDU em casa. Sem alarde, o Leão da Ilha já é lider de seu grupo.

O Cruzeiro venceu fora de casa, mas Kléber foi novamente expulso (e dessa vez, multado pela diretoria). Até o dia em que a balança pesar pro outro lado - sua ausência em campo custar uma vaga ou um título - o esquentado e eficiente atacante não sofrerá maiores pressões por seu comportamento em campo.

O Palmeiras destoa e perde a segunda seguida, dessa vez em casa. O clima, que estava ótimo pela grande campanha desde janeiro, cheira a crise se o Verdão tropeçar diante do Corinthians domingo. Espero que isso não aconteça, pois o time de Luxemburgo joga um futebol ofensivo, vistoso e com o garoto Keirrison merecendo voos mais altos.

E o Corinthians? Contando com o enorme apoio do "Big Brother Ronaldo" (a puxação de saco midiática em torno do "atleta"), fez 2 x 0 no Itumbiara e relaxou - o que quase lhe obriga a fazer o jogo de volta.

Ronaldo enfim estreou, dando uns piques aqui e ali, uma meia cabeçada acolá. Nada além do esperado para um jogador que está há um ano parado e atua apenas 27 minutos. Mas continua visivelmente acima do peso, com aquela camisa esticada na frente por causa da barriga. Vai ter que comer muito (pouco?) feijão-com-arroz pra ser uma opção digna pro ataque do Timão.
(Foto: Carlos Costa/Lancenet)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tudo pela imagem

Ronaldo é mesmo um fenômeno. Por seus lances e gols na carreira, fenômeno do talento. Por sua volta triunfal na Copa 2002 após grave lesão, fenômeno da superação. Por sua coleção de mulheres (?), fenômeno conquistador. E agora, sem jogar, sem ter a pretensão de voltar a ser o melhor, sem nenhuma certeza à vista, fenômeno de marketing.

O Corinthians contratou nada menos que a onipresença midiática de Ronaldo e o fascínio que ele ainda exerce em boa parte da torcida brasileira (por que outro motivo a camisa 9 do Timão com o nome do jogador já se esgotou nas lojas?). Faz lembrar Garrincha, cheio de problemas no joelho e já decadente, que chegou a jogar no Parque São Jorge alguns jogos.

Os tempos eram outros, o Corinthians daquela época ainda pensava em contar com o futebol de Mané. Agora, não. Ronaldo pode andar em campo, ou fazer gols entregues por seus companheiros de mão beijada que já estará de bom tamanho. O mundo olha para o campeão da Série B e as cifras da exposição da marca acompanham.

Como pontuou um colega de trabalho, se houve algo que colaborou para a volta do Corinthians à elite, contando com o máximo apoio da torcida, foi a estratégia de marketing. Camisa roxa, camisa com a foto da torcida e tudo o mais para chamar a atenção e fazer o corintiano se sentir parte de tudo aquilo.

Logo, Ronaldo não está em time melhor para retornar aos gramados - porque dos holofotes ele nunca saiu. Resta saber onde termina a estratégia de comunicação e começa o futebol propriamente dito, que traz os títulos.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ronaldo, o novo Romário

Ronaldo chega ao Rio para o tratamento médico e não perde tempo: à la Adriano, quer jogar no Flamengo antes de voltar para o Milan.

Kleber Leite, marqueteiro até dizer chega, já ficou todo "pimpão" com a declaração do Fenômeno e vai retomar a estratégia que, diga-se, já fracassou por falta de parceiros comerciais. Pode-se argumentar que dessa vez o Fla não tentará comprar o passe de Ronaldo, apenas pagar um salário muito menor durante alguns meses.

O que o torcedor acha disso? Ronaldo começa a voltar a andar. Até pegar ritmo de jogo, quanto tempo leva? Sem falar na crônica dificuldade para perder peso.

Portanto, fica no ar a questão: Ronaldo quer jogar no Fla ou apenas se recuperar de uma lesão? Para o Clube de Regatas do Flamengo, a exposição espontânea na mídia mundial, mais a venda de camisas e amistosos lucrativos dão o retorno do investimento.

Mas será que a torcida quer que o mundo inteiro veja Ronaldo andando em campo e sendo menos um no time do Flamengo? Será que Ronaldo, mimado do jeito que é por Globo e afins, vai aturar a impaciência da nação rubro-negra se não acertar logo? Porque, ao contrário de Adriano, ele já escreveu seu nome na história do futebol. O centroavante do São Paulo tem a motivação extra de uma carreira pela frente pra agüentar críticas e fazer gols.

E a nação rubro-negra, a bem da verdade, já não agüenta mais esse chove-não-molha que inunda dias e dias dos jornais sem nenhuma definição. Nesse ponto, Ronaldo já se equiparou a Romário: é só proferir uma pseudo-promessa esperançosa qualquer que já agita o mundo da bola.

Já passou da hora de só se falar de Ronaldo e Romário quando fatos concretos acontecerem.