sábado, 2 de outubro de 2010

A profissionalização do cinismo

Renato Mauricio Prado é um jornalista esportivo que possui uma característica rara entre seus colegas de profissão: assume publicamente o time para o qual torce, no caso, o Flamengo. Não vejo isso com desprezo, pode até ajudar o leitor a avaliar se o jornalista faz um bom trabalho. No entanto, seu artigo após a saída de Zico expôs de uma vez por todas como é fácil ser colunista de futebol no Brasil.

Quem acompanhou a coluna de RMP no Globo viu que desde o começo ele desconfiava que Zico pudesse dar certo como dirigente. Conhecedor das entranhas da Gávea, com "raposas felpudas" que lhe servem de fontes, o jornalista fazia seu trabalho como convém. Principalmente por ser rubro-negro, e assim demonstrar que não há parcialidade em seus relatos.

Porém desde que as suspeitas sobre a relação do CFZ com o Flamengo e o suposto conflito de interesses de Zico começaram a surgir, RMP ecoou cada desenrolar do caso em sua coluna. Também não seria nada de anormal, são os fatos surgindo e o jornalista cobrindo-os.

Mas é preciso lembrar que RMP conhece Zico desde os tempos de jogador, e acompanha a trajetória do Galinho fora dos campos como poucos. Ele, melhor do que ninguém, conhece o caráter de Arthur Antunes Coimbra. Como titular de uma coluna do maior jornal do Rio, deve saber a responsabilidade que pesa sobre seus dedos na hora de evidenciar uma história.

Até agora, nada foi provado sobre as possíveis irregularidades da parceria entre CFZ e Flamengo. O mesmo para a interferência de seus filhos nas contratações efetuadas. Ou seja, a história tinha tudo pra morrer por falta de fundamento. Mas foi dia sim dia não requentada por RMP em sua coluna.

Tudo isso poderia passar despercebido e nem seria feita menção neste blog, mas o artigo de RMP após a saída de Zico denota um cinismo que poucas vezes vi na cobertura esportiva.

Primeiro, porque é muito fácil julgar que Zico fraquejou ao "abandonar o barco em meio à tormenta". Que barco? Sua chegada no clube ajudou Patricia Amorim a abafar a crise da saída de Andrade e Marcos Braz. O Flamengo estava refém dos desmandos de seus jogadores, e Zico veio colocar ordem na casa.

Nem era obrigado a isso, pois a proposta de Patricia envolvia as categorias de base e o Centro de Treinamento. Zico não fugiu da responsabilidade e viu que não dava pra não assumir o departamento de futebol profissional. Mesmo sem autonomia plena, dependendo de outras instâncias do clube para contratar, encarou o desafio.

A farra dos empresários tinha acabado (Eduardo Uram ficou esse tempo todo sem fazer negócios por lá), e Zico reiterava que sua missão era de longo prazo, que o CT era necessário, e do jeito que dava tentava remendar os estragos em meio a um Brasileirão equilibradíssimo. Como RMP vem a público dizer que Zico "esqueceu do presente"? Então, se ele apenas visasse o imediato sem se preocupar com a estrutura, aí sim seria uma administração digna?

RMP diz que não crê "em nenhuma das maledicências que espalharam a respeito de seus filhos, agindo como empresários". Espalharam? Quem ecoou a história dias e dias em sua coluna? Se não acreditava, por que deu crédito a ponto de assinar embaixo para todos os leitores do Globo?

Pra completar, RMP ainda se diz decepcionado por Zico ter deixado o cargo. Como já falei aqui antes, cada um sabe de seus limites. Se querer fazer um trabalho direito (do qual não precisa) causa dissabores para sua família, qual a motivação para continuar? É muito fácil sentar a bundinha na frente do computador e vaticinar a respeito das decisões difíceis que gente como Zico têm que tomar diante da horda do Flamengo atual.

E pra mim isso é o pior de RMP: um cara que (como tantos que vemos por aí) abandonou o esforço jornalístico da apuração e virou comentarista apenas. Bem remunerado independente do que fale, cultivando fontes jurássicas que sabem como passar os recados interesseiros.

Pra não acharem que estou exagerando, veja o trabalho de Paulo Vinicius Coelho, um jornalista sediado em São Paulo, sobre o caso. Ele mostra que não há nada irregular com a parceria entre CFZ e Flamengo. Isso é apuração sem preguiça.

Também é muito fácil, depois de trabalhar tão mal, fazer um artigo diplomático na medida certa e batendo apenas no lado mais fraco. Esse tipo de jornalismo esportivo o país não precisa.

4 comentários:

Anônimo disse...

RMP é comprometido com o grupo que foi contrariado pelas medidas do Zico. Daí a reação instantânea.

Eduardo Varanda disse...

Parabéns pelo excelente artigo. Tenho ao longo desses últimos meses tentado lutar contra tudo isso que relatou, já enviei emails e emails para outros profissionais de imprensa, mas não dá em nada. RMP é gente da pior espécie, não digo mau jornalista não, é mau carácter mesmo. Zico pela sua história não tinha que provar nada, e foi sendo acusado e acusado. Se alguém tinha que provar alguma coisa, era Leonardo Ribeiro e seus comparsas, gente desqualificada e repondendo a inúmeros processos na justiça. Mas a maior parte da imprensa não defende a verdade e ajudou a difamar nosso maior ídolo. Claro que não toda, mas esses veículos de massa, como O GLOBO (em nome do RMP), globo.com, lancenet, etc. Quando Luxemburgo deu entrevista ao mesmo jornal afirmando que acha correto o treinador ter partipação no dinheiro da venda de jogadores, NINGUÉM comentou nada. Enviei emails para diversos jornalistas, e nada. É uma vergonha.

Eduardo Varanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Varanda disse...

Caro Marcos, não sei se costuma se envolver mais diretamente em aspectos do Flamengo, mas estamos tentando nos articular e formar um grupo para no futuro apoiar um nome diferente desses que sempre circulam pela gávea, e quem sabe, o Zico. Caso positivo, me envie um email (varandarj@hotmail.com), e isso vale para seus leitores também. Saudações.